MATO GROSSO DO SUL - DIVISIONISMO

Antes de tratarmos do movimento divisionista, é preciso resgatar a formação das oligarquias no Sul de Mato Grosso. O Sul de Mato Grosso, por alguns séculos, foi reduzido à condição de reserva de gado, cujos portos fluviais, no rio Paraguai, asseguravam a Cuiabá o acesso aos grandes centros econômicos e políticos. Porém, após a Guerra com o Paraguai, as vilas e as cidades nos ervais e Campos de Vacaria cresciam alheios às ordens e à assistência político-administrativa de Cuiabá.
No entanto, o Sul de Mato Grosso, no início do período republicano, desponta como uma economia disponível, suplente que substitui a antiga e decadente economia mineradora do Norte de Mato Grosso, ou seja, é a economia do Sul de Mato Grosso o sustentáculo do Estado.
A importância sócio-econômica e política do Sul de Mato Grosso acentua-se, na medida em que ocorre a sistematização da criação do gado, a posse da terra e a formação de vilas e de cidades; concomitante a esses fatores ocorre a instalação da Companhia Matte-Larangeira e a ligação ferroviária entre o Sul de Mato Grosso e São Paulo, fortalecendo também, econômica e politicamente, alguns dos grandes proprietários rurais da região.
A formação da Companhia Matte-Larangeira tem início no período após a Guerra do Paraguai (1865-1870), quando o governo imperial resolveu demarcar definitivamente as fronteiras com a república paraguaia. Assim, em 1872, forma-se uma comissão encarregada de demarcar os limites entre Brasil e Paraguai. Nessa comissão, destaca-se o nome do gaúcho Thomaz Larangeira que, aproveitando-se de seus contatos políticos, solicita a concessão da exploração dos ervais nativos da província. Recebeu da corte, permissão para colher erva-mate nos terrenos devolutos situados nos limites da província de Mato Grosso com o Paraguai.
Thomaz Larangeira não era o único que pretendia explorar os ervais. Era claro que esta atividade prometia lucros cada vez maiores. Assim, entraram na disputa pela posse de terras na região: a Casa Travassos & Cia, que requisitou ao Presidente da Província, em 1875, concessão para explorar os ervais da região de Miranda - a concessão foi obtida em 1880; Ernesto Castro Moreira, que obteve a concessão e a vendeu, logo após, para a empresa Furtado &Cia, de Buenos Aires.
Em 1889, nomes como o de Generoso Ponce, líder do Partido Liberal, Dr. Joaquim Murtinho, nomeado para o Senado, e Antônio Maria Coelho, que perdeu o cargo de governador por falta de apoio, fulguram no cenário político do sul de Mato Grosso. Nesse ano, ainda é Thomaz Larangeira o detentor do monopólio da exploração dos ervais.
Nesse mesmo ano, a Proclamação da República pega os políticos mato-grossenses de surpresa pois o movimento republicano não foi de grande expressão na província de Mato Grosso, embora Mal. Deodoro da Fonseca tenha estado em Corumbá, por ordem do imperador, em 30 de janeiro de 1889, chegando novamente à capital do Império em 13 de setembro de 1889.
Devido aos interesses de grupos diferentes em relação à exploração dos ervais, formam-se: de um lado, as oligarquias de Generoso Ponce e Murtinho e de outro, a oligarquia representada por Antônio Maria Coelho que busca apoio econômico em Thomaz Larangeira.
Entretanto, as oligarquias nortistas que se haviam estruturado durante o período monárquico, no início da República Velha, viviam as conseqüências da crise mineradora. Essas oligarquias enfrentam instabilidade política provocada pelo adensamento da crise econômica e, com isso, alguns grupos oligárquicos do Norte para manter seu poder e prestígio político no Estado estendem e fixam sua autoridade política no Sul de Mato Grosso, onde a prosperidade econômica sustentaria esse poder e prestígio. Cuiabá, apesar da prosperidade do Sul, é o centro político administrativo, de onde os coronéis nortistas controlavam os mecanismos de mobilização política e administrativa em todo o Estado e influenciam diretamente os órgãos públicos em benefício de seu grupo ou clã.

Apesar da decadência da economia mineradora, Cuiabá manteve-se como centro político administrativo estadual, sendo enfrentados alguns entraves pelo governo no que toca a administrar o extenso território mato-grossense. As grandes distâncias entre a capital e as cidades do Sul e a falta de comunicação eficiente, não apenas com as cidades mato-grossenses, mas também com o Rio de Janeiro, sede do governo federal fazem de Cuiabá uma capital isolada, dentro do próprio Estado de Mato Grosso. Essa distância dificulta ao governo não apenas a fiscalização do desenvolvimento econômico do Sul de Mato Grosso, mas também o controle da divulgação da idéia divisionista na região. Assim, o Sul do Estado, apesar de distante da Capital, torna-se, por causa de sua importância sócio-econômica e política, o ponto de atenção do governo estadual.
Por exemplo, os Murtinho e os Ponce, no início do período republicano, dominam a política estadual. Os Murtinho, uma das mais tradicionais oligarquias cuiabanas têm na grande propriedade e na estreita ligação com o governo federal a origem de seu poder. Principalmente Joaquim Murtinho que, durante os primeiros anos republicanos, participa do Governo Federal, ocupando o cargo de Ministro da Viação e Obras no Governo de Prudente de Morais e Ministro da Fazenda no Governo de Campo Sales, além de ser também médico particular do Marechal Deodoro da Fonseca.
Manoel Murtinho foi o primeiro presidente constitucional do Estado no período republicano, após seu governo torna-se Ministro do Supremo Tribunal Federal garantindo grande influência em nível federal. Generoso Ponce, representante de Corumbá e de uma das mais sólidas oligarquias do Sul de Mato Grosso, mantém estreito relacionamento com as oligarquias do Norte e age quase sempre em acordo com os interesses dos políticos de Cuiabá. A base de seu poder é o controle comercial e da propriedade rural.
Essas duas famílias, Ponce e Murtinho, possuem imensas glebas de ervais e sua força vinha do poderio que tinham sobre a legião de assalariados que formavam seus exércitos particulares. Entretanto, na disputa pela posse dos ervais e, por conseguinte, do poder econômico e político no Estado, prevalece o poder dos irmãos Murtinho, que faz uso da estreita ligação com o poder estadual e federal, gradativamente ampliando e reforçando seu poder político e econômico com todo o Mato Grosso. Com a concorrência pública de 1892, a família Murtinho quebra o monopólio de Thomaz Larangeira, através da obtenção, em concorrência pública, das terras devolutas compreendidas pelos rios Iguatemi e Paraná. Por força de razões políticas associam-se a Thomaz Larangeira, retirando seu apoio a Generoso Ponce, e passam a deter o controle acionário da Companhia Matte-Larangeira.
A Companhia acabou por englobar um total equivalente a 2.000.000 de hectares das melhores terras do Estado. Envolveu-se em todas as disputas por terras o que determinou que, no fim do século XIX, detivesse, por arrendamento todas as terras entre a fronteira com o Paraguai e o Paraná. A condição do arrendamento, prevista em contrato, demandava que o direito de exploração da erva-mate deveria pertencer somente à Matte-Larangeira e seus prepostos. Devido a tais manipulações, a Companhia Matte-Larangeira por muito tempo monopolizou a atividade de extração da erva-mate.

O desenvolvimento econômico do Sul de Mato Grosso proporciona também o fortalecimento político de um grupo composto de grandes proprietários rurais da região que praticam a pecuária extensiva, cuja atividade econômica exige grandes extensões de terras. Sendo assim, este grupo fundamenta seu poder político e econômico no latifúndio e na associação a outros fazendeiros e não proprietários estabelecendo laços de interdependência. As complexas relações sócio-econômicas e políticas entre proprietários e não proprietários fortalecem, politicamente alguns grupos de famílias, dando origem à formação das oligarquias sulinas desvinculadas das já existentes no Norte. A sistematização da pecuária leva, também, o fazendeiro a estabelecer laços comerciais com os moradores dos ervais e Campos de Vacaria e outras regiões, ou seja, ao mesmo tempo em que o fazendeiro vende seu gado, ele é intermediário na distribuição e venda dos produtos importados na região sul-mato-grossense.
No início da República Velha havia escassez de moeda circulante; esse fato reforça e estimula um costume antigo, a troca de produtos. Dessa forma, fazendeiros e outros moradores dos ervais e Campos de Vacaria entregam ao fazendeiro-comerciante: gado, erva-mate, peles de animais silvestres e outros produtos, por conta dos artigos importados e comercializados pelo fazendeiro-comerciante, estabelecendo assim uma interdependência econômica e também política. E neste meio que o fazendeiro-comerciante torna-se líder político local e arregimenta homens armados para ajudá-lo nas suas lutas políticas, ou seja, surgem os "coronéis"
Bento Xavier, por exemplo, é um destes fazendeiros-comerciantes. Egresso da 'Revolução' de 1893 no Rio Grande do Sul, inicialmente, estabelece sua fazenda e sua casa comercial em Itá. Mais tarde, com a prosperidade de seus negócios chega a possuir cinco fazendas e estabelece também uma casa comercial em Boa Vista, no município de Ponta Porã. Bento Xavier mantém ligações comerciais com Concepción no Paraguai, para onde conduzia tropas de gado e, de volta, trazia mercadorias para abastecer suas casas comerciais de Itá e de Boa Vista.

No Sul de Mato Grosso, as relações entre Bento Xavier e moradores dos ervais estabelecem uma dependência econômica e, por conseguinte, criam uma interdependência sócio-política. E entre os moradores dos ervais que Bento Xavier busca homens armados e apoio financeiro para sustentar suas 'revoluções' divisionistas. Durante a ocorrência das 'revoluções', chefiadas por Bento Xavier, esse fazendeiro-comerciante contou com a adesão de mais de cinco mil gaúchos solidários com seu ponto de vista, de que só a divisão do Estado facilitaria a legalização das posses de terras.
Nos primeiros anos da República Velha, os fazendeiros sul-mato-grossenses comercializavam, principalmente, com Concepción no Paraguai e com Uberaba no Triângulo Mineiro. Mais tarde, com a chegada da ferrovia, as relações sócio-econômicas tornam-se mais complexas e dinâmicas. Com isso, as oligarquias sul-mato-grossenses que se fizeram independentes das oligarquias do Norte de Mato Grosso e, apesar de sua formação recente, são econômica e politicamente tão importantes quanto as do Norte.
A chefia das oligarquias, tanto no Norte quanto no Sul, é exercida pelos coronéis. O coronelismo, na Primeira República, é uma forma peculiar da manifestação do poder privado, ou seja, são chefes políticos locais. O coronelismo é alimentado pelo poder público, que não tinha outro meio para controlar o eleitorado rural, sob o domínio dos proprietários de terras. Assim, o poder privado estabelece relações de compromissos com o poder público numa troca de interesses e proveitos, centralizando nos chefes políticos municipais os coronéis do interior, cujo prestígio político servirá de fundamento ao sistema coronelista.
A atividade política dos coronéis, no período da República Velha, caracteriza-se pelo confronto armado, isto é, a disputa pelo poder sócio-econômico e político como forma de revelar ou garantir a supremacia de certos grupos oligárquicos no Estado passa pela luta armada e, não raro, pelo aniquilamento das lideranças. Essa tática política é utilizada, principalmente, contra os coronéis sulistas, que defendem a bandeira divisionista, porém, o aniquilamento do adversário traz em si o germe das próximas crises, uma vez que, a morte ou o banimento do coronel divisionista não faz desaparecer a idéia divisionista, muito pelo contrário, o divisionismo reaparece sempre que há o rompimento de um acordo oligárquico que não atende às reivindicações sulistas.
Portanto, no período da República Velha, em todo o Mato Grosso aparecem coronéis que, de maneira geral, pegam em armas pelo poder. Entretanto, os coronéis guerreiros, aqueles que se identificam com a "peleja política" e a transformam em sua própria razão de ser e base fundamental de seu poder de mando, restringem-se mais ao Sul de Mato Grosso, tendo em vista a influência das migrações, principalmente gaúchas e mineiras, as quais não apenas trazem, mas também divulgam a idéia divisionista.
À primeira vista, essa afirmativa parece um paradoxo, porém as pelejas políticas, nas quais aparecem a defesa do divisionismo, servem para divulgar a idéia divisionista e contribuem para o amadurecimento político não apenas das oligarquias sulinas, mas também de todos os sul-mato-grossenses de diversas origens. Porque todos os moradores do Sul de Mato Grosso participam, direta ou indiretamente, dessas pelejas políticas ou confrontos armados, como combatentes ou financiadores dessas lutas políticas.
Há muita disputa pela posse das terras. Tais disputas ocorrem entre os coronéis e os outros recém-chegados como os gaúchos.
Também há disputa pelo controle político entre as oligarquias de Ponce e Murtinho. Tal disputa é seguida por outra pela exploração dos ervais. Assim, surge o movimento divisionista, na verdade uma fusão de alianças com o intuito de obter o monopólio de exploração dos ervais. De um lado as oligarquias adversárias da Companhia Matte Larangeira, formadas pelas oligarquias sulinas e as oligarquias de Cuiabá adversárias da Matte Larangeira, de outro, as oligarquias que faziam parte da Matte Larangeira.
A defesa da divisão do Estado, a resistência ao controle político-administrativo exercido pelas oligarquias do Norte de Mato Grosso por meio da Companhia Matte-Larangeira colaboram para o fortalecimento político, de alguns coronéis sul-mato-grossenses, durante a República Velha.
A primeira tentativa de se criar um novo estado ocorreu, de forma esdrúxula, em 1892, por iniciativa de alguns revolucionários sob as ordens do coronel Barbosa; anos depois, o líder da Vacaria João Caetano Teixeira Muzzi, inspirado nas idéias divisionistas do advogado gaúcho Barros Cassal (radicado em Nioaque), criava o Partido Autonomista, para propagá-las; Jango Mascarenhas e Bento Xavier também defenderam, a seu modo, a autonomia do sul, principalmente depois de se convencerem de que estavam sendo usados por líderes do norte.
Na República Velha, o governo estadual (poder público) e a Matte-Larangeira (poder privado), através das oligarquias regionais, fizeram alianças, acordos, arranjos políticos para garantir a unidade estadual. O governo estadual esteve sempre atento ao perigo do desmembramento do Estado, perseguindo violentamente tais idéias ou usando do empreguismo como forma de cooptar os descontentes e, até mesmo, de intensa propaganda oficial na imprensa regional. Divisionismo 2º parte