O estado de natureza na doutrina clássica

O estado de natureza na doutrina clássica e as variações  das noções de liberdade e igualdade. (Hobbes, Locke e Rousseau)

 Hobbes introduz a abstração lógica do estado de natureza, uma condição hipotética em que não há poder comum para controlar os indivíduos, nem lei e nem coação da lei. O homem civilizado queria sair dessa condição, mas ao mesmo tempo ele também tinha — no estado de natureza — os direitos naturais que queria preservar, particularmente “a liberdade que cada homem possui para usar seu próprio poder como quiser, para a preservação de sua própria natureza; isto é, de sua própria vida, e, conseqüentemente, de fazer qualquer coisa conforme seu próprio juízo e razão e, além disso, de conceber os meios mais apropriados para tanto”.

Para John Locke, como para Hobbes, a condição política original do homem é um singular “estado de natureza” não-primitivo — o estado de perfeita liberdade individual no qual o homem tem a prerrogativa de todos os direitos e privilégios da lei de igualdade de natureza em relação aos outros— onde o homem poderia não apenas assegurar e preservar sua propriedade mas ser, ao mesmo tempo, juiz e executor da lei natural. Porém, esse estado de natureza pode degenerar em um estado de guerra: um homem pode tentar submeter outro homem a seu poder absoluto.

Ë em seu conceito de sociedade civil que Rousseau difere muito de Locke. Para Locke a sociedade civil é um novo meio dos homens regularem-se — ele observou as monarquias existentes não como sociedade civil, nem como algo que refletisse a concepção de como os homens deveriam governar-se na extensão de sua razão e perfeição. Locke viu o estado de natureza degenerando-se em guerra e conflito, e os homens formando uma sociedade naturalmente justa e eqüitativa para proteger sua propriedade, naturalmente adquirida, do estado de guerra, possível na natureza (já que cada indivíduo poderia tomar a lei em suas próprias mãos). Dessa forma, temos a razão e a perfeição da sociedade civil colocadas contra o caos e a desigualdade do estado de natureza.

Para: Rousseau viu o homem na natureza como sem moralidade, mas ao mesmo tempo sem maldade; o homem é corrompido não pela natureza, mas pela posse da propriedade e pela formação da própria sociedade civil. Ë a sociedade civil que é cor­rupta e a natureza é um ideal pré-humano.

Dadas tais diferenças, não é surpresa que Rousseau e Locke devessem também encarar o processo de formação da sociedade civil e os fundamentos dessa sociedade  particularmente a propriedade e o mercado de forma diferente: primeiro, Locke viu a posse da propriedade como a base de uma sociedade civil justa e eqüitativa; Rousseau considerou que isso foi a origem do mal e da desigualdade.

Segundo, Locke argumentou que os homens formaram a sociedade civil para protegerem-se das condições do estado de natureza. Eles entregaram as liberdades naturais desse estado para obterem se­gurança coletiva para a propriedade e a vida. Além do mais, contrariamente à formulação de Locke sobre a sociedade civil como um acordo entre iguais, associados com pleno conhecimento de seus direitos e obrigações, Rousseau considerou a sociedade civil como obra do mais rico e poderoso, formando tal sociedade em função dos seus interesses, não necessariamente no interesse das massas. Em uma sociedade desigual, o rico achou isso necessário para preservar a ordem, controlar as tentativas de usurpá-la e para legitimar a exploração do pobre. Foi, portanto, o rico que concebeu a sociedade civil, uma sociedade civil que protegia os seus interesses:

Rousseau, portanto, viu o Estado da sua época como criação do rico para assegurar sua posição como classe dominante, um Estado apresentado como benéfico a todos, mas destinado a preservar a desigualdade. Ele sustentou que era impossível separar a desigualdade social da desigualdade política, mas ao mesmo tempo acreditou que os homens queriam ser livres e iguais  que foi sua ignorância que os levou a aceitar a sociedade civil na qual viviam. Rousseau pôde, então, conceber um Estado que garantiria a liberdade e a igualdade.  

 Discutindo a tensão entre a representação e a participação política.

 Schumpeter levantou alguns pontos específicos sobre participação política e democracia. Primeiro, não existe algo tal como o bem-comum unicamente determinado, com o qual todas as pessoas poderiam concordar ou deveriam ser levadas a concordar pela força do argumento racional; o bem-comum está destinado a significar coisas diferentes para pessoas diferentes . Segundo, mesmo se as opiniões e desejos dos cidadãos individuais fossem dados perfeitamente definidos e independentes, com os quais o processo democrático operaria, e se todos atuassem, a partir deles, com uma racionalidade e uma exatidão ideal, isso não implicaria necessariamente que as decisões políticas resultantes desse processo, com base no material bruto daquelas vontades individuais, representassem qual­quer coisa que em qualquer sentido convincente pudesse ser chamado de “a vontade do povo”. Terceiro, os cidadãos são normalmente mal informados ou desinteressados pelos problemas políticos, exceto em relação àqueles que os afetam diretamente, economicamente. Nessas situações, antes de agir no sentido de bem-comum, eles agirão com base nos interesses próprios, individuais.

Para que esse tipo de Estado (o modelo democrático) seja um sucesso , certas condições têm de ser preenchidas: (1) o material humano da política deve ser de qualidade suficientemente elevada; (2) o âmbito efetivo das decisões políticas não deve ser muito amplia­do, isto é, muitas decisões devem ser tomadas por especialistas, com­petentes fora da legislatura; (3) o governo democrático deve dirigir uma dedicada burocracia, que deve ser um poder por si só; (4) os eleitores e legisladores devem ser moralmente invulneráveis à corrupção e devem exibir autocontrole na sua crítica ao governo; e (5) a competição pela liderança exige uma grande capacidade de tolerância pela diferença de opinião.

Mais uma vez o sistema político é concebido como um mercado e as decisões dos eleitores são baseadas na versão política da teoria neoclássica da utilidade, o problema torna-se uma questão de grau de soberania do consumidor no mercado.  Num mercado puro e competitivo, o poder sobre o comportamento do Estado ainda está nas mãos do eleitor. Embora os políticos possam decidir que problemas atacar ou que decisões tomar, são os eleitores que têm de comprar aqueles problemas — os consumidores políticos decidem o que querem comprar. Além do mais, nem todo eleitor quer comprar todos problemas e existem muitas funções de governo — muitas decisões a serem tomadas — em que o consumidor não está interessado. O poder, segundo Dahl os políticos devem corresponder de alguma forma aos eleitores porque e deles  que o verdadeiro poder emana. 

A relação entre a teoria dos sentimentos morais e o papel do Estado em  Adan Smith.

 A defesa, feita por Smith, da economia de mercado livre como a mais satisfatória dentro de uma sociedade de classes (onde as classes são perpetuadas de geração a geração) exigiu, contudo, o abandono da confiança de Smith na moralidade individual como a principal força social coesiva. O Estado veio ocupar (na teoria liberal) uma crescente função como expressão da vontade social e da igualdade individual. Os utilitaristas tinham muitas dúvidas de que a classe trabalhadora fosse esperar para ver, mas progressivamente aceitaram a possibilidade de que ela devesse fazê-lo. Por que a classe trabalhadora, concedido o sufrágio, não se opôs uniformemente ao Estado burguês é, sem dúvida, o problema fundamental não somente para os utilitaristas mas também para os marxistas. De qualquer maneira a doutrina liberal e sua conseqüência, o pluralismo, nunca se sentiram muito confortáveis com o sufrágio universal e com o governo da maioria, principalmente porque essas teorias encaram a função ideal do Estado como a de um regulador do funcionamento do sistema de mercado, mas ao mesmo tempo reconhecem claramente a desigualdade desse sistema e o poder do Estado para alterá-lo, se os trabalhadores vierem alguma vez a controlar os aparatos legislativos e legal. O pluralismo foi a “resposta” do século XX a essa dificuldade.

 

A  noção de ampliação da democracia para os diversos segmentos sociais, segundo os liberais.

 Essas análises e a intensidade do debate sobre a democracia liberal refletem o fato de que o capitalismo e o papel do Estado capitalista têm mudado significativamente desde o tempo de Adam Smith e seus seguidores, os utilitaristas. A mudança constante da população trabalhadora, do trabalho autônomo  principalmente na agricultura para o trabalho nas grandes empresas em crescimento tem transformado as sociedades capitalistas de nações de fazendeiros e comerciantes para nações de empregados cujo trabalho depende do funcionamento de colossais burocracias que competem nos mercados inter­nacionais e freqüentemente organizam seu investimento de capital numa escala internacional, O próprio Estado é uma dessas burocracias, empregando diretamente (nos Estados Unidos) aproximadamente 1600 da força de trabalho e controlando cerca de um terço do pro­duto nacional bruto, O poder econômico das grandes corporações privadas e do Estado sobre as políticas de investimento e o desenvolvimento capitalista parece tornar a mão invisível do mercado livre de Adam Smith de pouca utilidade para os objetivos da análise dessas questões.

Com a atual crise do Estado liberal, alguns atacam o próprio Estado como o maior obstáculo à democracia e à “perfeição” da mão invisível. Tem havido um renascimento da visão smithiana do Estado “mínimo” e uma volta ao mercado “livre” como o meio mais “moral” para alcançar a melhoria material e social. Os corporativistas consideram a formação de novas estruturas políticas como a base para um tipo diferente de Estado, um Estado que represente os interesses de organizações de grupos e  com a cooperação desses grupos — venha a organizar o desenvolvimento social e econômico para o bem-comum. Existe, porém, uma abordagem diferente para a compreensão do moderno Estado capitalista. A crítica de Schumpeter à democracia liberal e o trabalho de Panitch sobre o corporativismo supõem um conflito de classes sub­jacente à democracia capitalista que o Estado liberal tem dificuldade para resolver e que impede a expansão das estruturas corporativistas em um sistema corporativista. A análise de classe do Estado contesta a unidade de propósitos entre os cidadãos de uma sociedade capitalista e a correspondência entre o interesse da maioria e os benefícios públicos da ação do Estado. Ela contesta a própria noção de democracia no contexto do desenvolvimento capitalista. E também rejeita o corporativismo como um tipo ideal, sob o fundamento de que os modelos de sistema corporativista não admitem a natureza de classe subjacente à produção capitalista, mesmo em suas novas formas (corporativas).

 Bibliografia:

Estado e Teoria Política

De: Martin Carnoy

Por; Carlos Roberto Cerqueira