POR QUE TRISTE O JABURU  

 

    Nessa hora dúbia que ainda é dia e ainda não é noite, uma imensa tristeza se apodera dessa ave esquisita. E o jaburu, num dormitar profundo, nem sequer agita o longo pescoço, parecendo então um empalhado, espécime de museu.

    Nas grandes noites de cheia, move as asas poderosas e caminha de um lado para outro, lento e meditativo, como a montar guarda naquela lagoa que é, desde há muito tempo, o seu pouso, a sua morada.

    Vive sempre só e quando acontece aparecer um intruso, abre-lhe guerra e luta ferozmente.

    Na hora crepuscular, o seu vôo nos faz lembrar velhas imagens de contos de fadas.

    Quem viajar pelos sertões de Mato Grosso, mormente pela zona sul, há de encontrar à margem dos rios ou à beira das lagoas, uma ave cinzento-escura, pernas grossas, triste e esquisita, que tem, contentemente, a cabeça voltada para a terra..

É o jaburu...

    Todas as tardes, ali escorado, êle está numa perna só, tristonho, cabisbaixo.

    Sôbre a tristeza mística dessa ave há a seguinte versão:

    Mandi, indiozinho guerreiro, quebrando os preceitos sagrados da sua religião, deixou-se um dia apaixonar perdidamente por Ituna a mais formosa mulher da tribo de Morembi.

    O pai queria fazê-lo Cacique, mas para isso era preciso, conforme dizia o pajé, que o filho não se casasse enquanto não passassem cinco luas, depois de ter recebido do pai o tacape de guerreiro e o diadema de morubixaba. Mas Mandi, que já havia consultado as águas da Lagoa Sagrada, sabia perfeitamente que a primeira lua muito longe estava ainda.

    Por isso não podia esperar. Antes perder a soberania de Cacique do que ficar sem o amor daquela que Tupá mandara do céu, para alegria de seu coração na terra.

    E Mandi não esperou, nem tão pouco ouviu as súplicas angustiosas do pai velhinho e doente... Carin revoltou-se e, num momento de ódio, rogou uma praga terrível contra o filho.

    Tôdas as tardes inevitâvelmente, Mandi ia encontrar-se com Ituna à beira da Lagoa Sagrada e ali ficava, horas a fio, a contemplar a majestade de Febo, que se ocultava, aos poucos, na curva ensanguentada do horizonte.

    Mas nunca estavam sós.

    Uma ave de plumagem cinzento-escura, pescoço encolhido, descansando sôbre uma das pernas, vinha fazer-lhes companhia.

    E os dois divertiam a jogar migalhas de fruta adocicada ou miolo saboroso de quipiá para aquela ave mansa e esquisita apanhar com o seu bico grosso e forte. E em pouco tempo eram três que tôdas as tardes vinham admirar, a beira da lagoa, a sublimidade da luta do dia contra as trevas...

    Ficara tão manso o jaburu que vinha tirar-lhes da pal­ma da mão a fruta adocicada ou o miolo saboroso.

    Uma tarde, porém, umas nuvens densas e pesadas conglobaram-se para os lados do poente, com prenúncio de borrasca iminente.

    Na tribo dos Araés ia uma balburdia medonha.

    Cariu, o valente e destemido guerreiro cacique, estava agonizante. As sombras daquela noite sem alvorada começavam a cair, lentamente sôbre sua cabeça.

    De quando em quando, pavoroso e medonho, um relâmpago rasgava o céu. O pajé, mãos cruzadas, cabeça caída sôbre o peito rezava baixinho. Mulheres e crianças imi­tavam-no.

    Quando percebeu que era chegada a hora, Carin chamou Mandi e entregou-lhe o tacape de guerreiro e o diadema de morubixaba.

Lá fora coroado o nôvo tuxana, um grupo de araés dançava ao som de música funebre...

    Mandi beijou a fronte bronzeada do pai e retirou-se. Na frente da palafita, mãos em conchas, sem dar atenção aos que saudavam, olhou em baixo e viu, por entre o clarão de um relâmpago, o vulto de Ituna que o esperava.

    Não pode conter-se. Atirou para um lado os troféus sagrados que há pouco o pai lhe dera e desceu a encosta em desabalada carreira. Lá estava Ituna e formosa virgem que Tupá mandara do céu para a alegria do seu coração na terra.

    Mandi contornou-lhe o corpinho delgado com seus braços longos e vigorosos e ia forçá-la para satisfação do seu incontido e lúbrico desejo, quando um raio, rasgando as trevas, veio cair-lhe em plena cabeça, fulminando-o juntamente com a índia virgem. No outro dia, já muito tarde, o pajé encontrou-os caldos sôbre a relva úmida, os corpos estreitamente unidos, num abraço impressionante o abra­ço da morte.

    Lá estava também, meio idiotizado, o cismarento  jaburu. Nessa mesma tarde um grupo de araés abria duas tibis nas terras de Pendejá, o heróico tuxana, pai de Carin, que ali tombara um dia em defesa da tribo varado pelas balas dos guerreiros brancos. Uma delas para receber o corpo do bravo cacique: a outra, aberta ao lado da Lagoa Sagrada para sepultar os dois jovens que tombaram fulminados, ante os olhos irados de Tupá, na hora da consumação do pecado...

    O jaburu, tristonho e imóvel, tudo presenciara sem nada compreender.

    E quando a última pá de terra caiu sôbre a tibi dos dois pecadores, êle voou e partiu.

    Mas tôdas as tardes voltava.

Vinha esperar como de costume que alguém lhe atirasse a fruta adocicada ou o miolo saboroso.

    Mas em vão. Nunca mais os viu voltar, alegres como dantes!

    Dai por diante, o jaburu tornou-se mais triste ainda; as penas foram caindo aos pouco e a cabeça vergou sob o pêso tremendo da dor... Mas êle não desanimava. Tôdas as tardes, ali estava descansando sôbre uma das pernas, em cima daquele amontoado de terra, os olhos cravados no chão, na esperança de ver surgir, debaixo dos seus pés aquelas duas almas amigas.

 

Helio Serejo.

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