A GRUTA DO INFERNO
Quem
sai do Forte de Coimbra, pelo portão de cima, rumo à barra, percorrendo o
pantanal em direção Norte, durante trinta minutos, atinge a um ponto extremo
da corda de uma garganta ou de uma grande curva do rio Paraguai. O Morrinho
fica do lado direito, e à esquerda, um outro desfiladeiro. Ai, bem nas saliências
do morro forte de Coimbra, existe a entrada da famosa e tétrica gruta do
Inferno, ou Buraco Soturno.
A
emoção, lardeada de dúvidas e incertezas, resvalando até ao temor,
guiava-nos, emprestando-nos força para vencer, fazendo-nos voltar o olhar
para trás tocados dessa inquietação de quem se despede do mundo. E, de
relâmpago, vislumbrávamos ainda a luz radiante (do sol, que lá fora,
esplendia deslumbrador. E à proporção que mergulhávamos nas trevas,
atingindo assim o primeiro átrio da gruta, a escuridão de tão forte que
era, absorvia em nossa retina, todos os encantos da luz que trazíamos de
quando iniciáramos a descida. E no espaço de alguns segundos, já sentíamos
clamorosamente, a saudade da luz e uma comoção que nos transfigurava o ânimo,
se dilatava, espraiando-se pôr todos os recantos dos nossos sentidos. Começávamos
a sentir a presença dos grandes redutos de sombras que engendram sensações
macabras. Será difícil à alma humana, porquanto escoimada seja de
fetichismo, não sentir o arrepio emocionante de um recinto, cujo nome
exalta e evoca a fantástica morada de Satã! Quando se está num lugar assim,
onde os duendes, os trasgos e as avantesmas parecem rondar, cosidos nas
trevas, perpassa-nos pela imaginação um cortejo de vultos sinistros,
fronticurvos, pôr entre sombras que sarabandam, esfuziando em nossos ouvidos,
com agudos e penetrantes silvos que prenunciam a presença, na escuridão, do
Príncipe das Trevas! E a coragem, nesse instante, como que amoitada dentro
do âmago, assiste o estrebuchar do medo que as aparições espetrais evocam
em ambientes como aqueles, onde, no negror germinatriz, os fantasmas
farandulam perdendo-se nas trevas em rodopios crebros, acendendo para os
nossos sentidos, as fogueiras daquele legendário Sabat, onde Mefistófeles,
de pontiagudos chifres e longa cauda flamejante, envolto na sua capa negra,
aparecia fascinando as almas tímidas, induzindo-as ao pecado e enfeitiçando
os corpos afeitos ao vicio, chafurdando-os no deboche!
Na
escuridão do Buraco Soturno são essas as sensações que assaltam a
imaginação de quem vai penetrando o vazio do rochedo calcário de formação
vulcânica onde a tradição faz habitar o diabo que lá teve a felicidade de
ser fotografado pôr um excursionista audacioso que proporcionou, assim, a
criação de variadas lendas absurdas que aterram ainda hoje o espírito pouco
arguto dos propensos a bruxaria.
Dois
são os aspectos sob os quais devemos apreciar o Buraco Soturno ou a Gruta do
Inferno, O geológico resultado
da desagregação da rocha calcária pela penetração das águas pluviais de
modo preguiçoso
às vezes, e outras violentas e impetuosas. E outro: uma solução de continuidade
na rocha vulcânica, deu lugar às primeiras invasões liquidas, depois o
trabalho lento da “água mole” em pedra dócil, gota a gota, persistente e
insistente, num demorado labor de infiltração, que vem trazendo às salas, de
que até hoje ainda não se conhece o número exato, uma ornamentação bizarra,
estranha, curiosa, esquisita, caprichosa e artística, em símbolos arquitetônicos
de configurações que tendem a imitar todos os estilos numa síntese que e um
misto de caricaturas hilariantes às vezes, e quase sempre de caricaturas que se
confundem com a estrutura de caraças que lembram a morte. São vastas salas
de uma arquitetura imprevista, onde não colaborou a mão do homem nem
sentimento algum da alma humana. É uma confusão atrabiliária de colunas,
capitéis, volutas, fustes, pedestais e plintos, formando nichos e esconderijos
que infundem pavor, dispostos numa desordenada ornamentação pôr sobre o
pavimento das imensas furnas pôr onde o ar plúmbeo a custo é respirado. Ao
alto, as abóbadas fileteadas ‘de pingentes e cavilosos rendilhados, muito
brancas que parecem terem sido barradas de neve. São ornamentações essas
formadas pelas estalactites e estalagmites que há séculos as águas vêm
goteei ando insistentemente, na faina eterna de edificar através de uma
obstinada concreção, aquela obra-prima da natureza que, pela sua harmonia,
desafia a mais fértil imaginação de engenheiro que se possa imaginar.
Aí
o homem sente-se como que impotente e amesquinhado.
Num
lago, perdido no interior de um vasto salão, a água cristalina, forma um
espelho de transparência maldita, refletindo em seu bojo todas as bizarrias que
esmaltam a abóbada gigantesca.
O
ar pesado e o silêncio profundo e misterioso, exaltam e empolgam, aqui neste
ponto, os nossos sentidos.
Vemos,
nas sombras projetadas das cousas que a nossa lanterna recorta com lâminas
vermelhas no bojo escuro, merencórias e taciturnas formas (de vultos que nos
assaltam a fantasia, como vindos do seio do mistério. Milhares de aspelros e
duendes parecem bailar fantasticamente ante a nossa retina; uma emoção
trasbordante cresce dentro de nós.
Receio?
Medo? Pavor? Não! A ciência rejeita a bíague secular das histórias macabras
de abusões, bruxarias e fetichismos. Evocamos, então, nesse momento, as lendas
misteriosas que pairam a gruta.
Um
padre entrou na dita gruta — isso vai às priscas eras — e quis sair na ponta do Morrinho, cinco quilômetros
distantes do lugar onde entrara, passando através do leito do rio Paraguai. Uma
moça formosa, desesperada pôr um desengano de amor, entrega ai, a sua alma, ao
Príncipe das Trevas e até hoje é vista pelos raros moradores da redondeza,
à noite, chorando como sentinela dolorosa, à entrada daquela furna descomunal.
Um general, de uniforme branco e espada reluzente, dizem, que à noite
vocifera nas sombras do abismo dando vozes de comando a uma imaginária
artilharia. Uma velha paraguaia vinda de Assunção, acossada pôr um sonho
diabólico, veio um dia ao forte de Coimbra procurar um condenado militar, cujo
nome declarara ao comandante, para que o mesmo condenado fosse com ela ao mistério
da gruta retirar um “enterro” (tesouro enterrado. O preso recusara seguir a
paraguaia, porém ela ousada e destemerosa, afrontou o risco da solidão e até
hoje anda vagueando pôr aquelas profundezas à cata da fortuna entrevista no
pesadelo do sonho.
Sílvio
Floreal: O Brasil Trágico. Empresa Gráfica Rossetti, São Paulo, 1928, pp.
147-154.