A
Música de Campo Grande – MS, sua
Formação e seu Estilo Cultural
A principal dificuldade na abordagem da música sul-mato-grossense reside na ausência de registros, tanto na parte de textos e partituras, no que se refere a discos, fitas, vídeos e filmes. e projeto que possa servir de referência à música ~a no Estado, apesar da força com que se projeta nossas fronteiras, com nomes conhecidos da minal, corno Almir Sater, Paulo Simões, Tetê Espíndola Guilherme Rondon. A falta de memória, que sempre a das características de nossa cultura, é a grande responsável pelo desaparecimento de vozes e de eventos dos quais só resta a recordação. Em decorrência , a melhor e mais valiosa fonte de informação, contamos, são os depoimentos de músicos, na área há mais de vinte anos1 que, através do fio lembranças, recompuseram os traços distintivos de música. Foi feita análise da música erudita, por Kalil violinista e um dos fundadores da Orquestra Sinfônica de Campo Grande, da música popular urbana por
Espindola,
Paulo Simões e Grupo Acaba e da a sertaneja por Aurélio Miranda.
Em
decorrência da divisão do Estado, em outubro de 1977, os registros oficiais
ficaram em Cuiabá, Mato Grosso Uno. Como Mato Grosso do Sul não um arquivo de
seu passado musical, quem quiser ver um bom trabalho sobre música precisa
deslocar-se até Cuiabá, São Paulo- Rio de Janeiro, ou, quem até Lisboa.
MÚSICA ERUDITA
A
música erudita sempre teve lugar de destaque em Mato Grosso do Sul. Desde os
anos 30, existiram tanto em Campo Grande, como em Corumbá, várias escolas de
música, onde se ensinava a amar e a executar os clássicos. A partir dos anos
quarenta, com a chegada de Frederico Liebermann a Campo Grande, foi criada a Orquestra
Sinfônica de Campo Grande, sob a regência do referido músico e contando com
as figuras de Emydgio Widal, João Correa Ribeiro, Kalil Rahe e do Padre José
Valentim. Este último, talentoso compositor e escritor, foi durante alguns
anos o animador da Orquestra, à qual fornecia as partituras e cujos concertos
abria, orientando os ouvintes com explicações didáticas sobre as melodias a
serem executadas. Antes do advento da televisão as apresentações da
Orquestra se constituíam em espetáculos memoráveis, com grande frequência de
público, aplaudindo e pedindo bis.
Com
as mudanças trazidas pelo rel6gio do tempo, a Orquestra viu desaparecer seus
principais integrantes, e sentiu na carne o desinteresse dos governantes por
uma atividade, que tanto prazer proporcionava ao povo. A partir dos anos
sessenta comandava a Orquestra com força renovada o violinista Kalil Rahe.
Orientando os ensaios, subvencionando os músicos com recursos de sua empresa,
passou anos à porta dos gabinetes governamentais, em busca de auxílio
financeiro, para não deixar morrer a Orquestra Graças à sua pertinácia, a
Orquestra continuou seus ensaios e fez apresentações em quase to dos os municípios
do Estado. Entretanto, há dois anos encontra-se à espera de um apoio
financeiro, que lhe permita reerguer-se com o brilho e a coragem dos velhos
tempos. Kalil Rahe, aos 67 anos, aposentado em suas funções de professor da
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, confia no aparecimento de alguém de
sensibilidade, que retire a Orquestra Sinfônica de seu estado de letargia
involuntária.
Durante
vários anos, Tarcisio Leal estimulou a música erudita entre nós. Hoje, o que
existe em termos música erudita em Campo Grande, é a Orquestra harmônica de
Mato Grosso do Sul, dirigida pelo mãe Victor Diniz, que se apresenta com
brilho, executa composições de clássicos internacionais e brasileiro Como
fazia o Pe. José Valentim, no tempo da Orquesta
Sinfônica de Campo Grande, os concertos da Orquesta
Filarmônica são precedidos por explicações didática adotadas pelo
maestro. As academias de Música das professoras Tunita Mendes, Marina Rego
Lopes, Célia Myiahira, lolanda Godoy, em Campo Grande, ao longo dos anos, incentivaram
nos alunos o gosto pela música erudita.
MÚSICA POPULAR URBANA
Segundo
Guizzo é em Corumbá, que no final
do século passado detinha o status de maior entreposto comercial do Estado,
que residem os primeiros movimentos musicais, com a presença de orquestras e
bandas que movimentavam instrumentistas, compositores, intérpretes. De acordo
com o referido compositor, entre 1930 e 1934, havia tantos músicos em Corumbá,
que foi formada uma ORQUESTRA ESPECIAL com cerca de trinta elementos. No começo
do século, acontecia naquela cidade, rodeada pela beleza do Pantanal, o mais
animado Carnaval do Estado, como corsos, cordões, blocos, escolas de samba, além
de fantásticos bailes de clubes.
São
de Corumbá os nomes que marcam o início da música de Mato Grosso do Sul.
Mané Só, Pedro de Medeiros, Lindolfo Cuiabano, Faustino Machado, Mário
Feitosa Rodrigues, Carlos de Castro Brasil, José Virgínio da Silva e Luís
Feitosa Rodrigues, Levino Albano, compositor e exímio violinista da música clássica
e popular. Ainda de acordo com Guizzo, no campo da música urbana é de Corumbá
o precursor desse gênero: José Inácio da Silva Neto, cuja composição,
SILENCIO NOTURNO, feita em parceria com Clio Proença, foi a primeira a ser
gravada por uma editora.
E
impossível analisar a trajetória da música popular sul-mato-grossense sem
rever as correntes migratórias que fazem parte do processo de formação do
Estado, a partir da chegada de Aleixo Garcia, em ~524, e dos portugueses que
aqui estiveram em busca de ouro e de índios para escravizar.
A
presença mineira é responsável pela introdução de ritmos sertanejos e
caipiras mineiros, como o pagode e o arrasta-pé. Com o fim da Guerra do
Paraguai,
Música
Popular Urbana de Mato Grosso do Sul em 1870, brasileiros e paraguaios fixam-se
no sul de Mato Grosso. A maior parte de brasileiros é constituída de gaúchos,
que se instalam nas cidades fronteiriças de Bela Vista e Ponta Porá. onde vão
deixando a marca de suas danças, sua música, seus costumes enfim. Com a
inauguração da Noroeste do Brasil, nova invasão paulista acontece nas
cidades colocadas ao longo da ferrovia Campo Grande torna-se o eixo sócio-econômico
da região, para onde convergem levas de migrantes do País e do exterior. De
todos os quadrantes do mundo acorrem populações, que com sua fala, seu jeito
de trabalhar a terra, seu modo de encarar a vida, vão constituir esse mosaico
que é a cultura sul-mato-grossense.
De
acordo com depoimentos dos artistas, a influência maior é a da música
paraguaia. Segundo Paulo Simões, a música de Mato Grosso do Sul é um produto
multi ,proveniente de diversos pontos cardeais, diferente portanto da música
popular internacional e da world music". A música branca e rural tem
origem em São Paulo e Minas, de onde saíram as bandeiras, que vieram
desbravar o Estado. Numa camada baixa autóctone pode-se considerar a existência
da música indígena, muito mal conhecida, mas presente no ar. Na fronteira com
o Paraguai e a Bolívia, há a influência dos ritmos platinos, entre os quais
se podem englobar a polca paraguaia1 a guaránia, o rasqueado, o chamamé.
Pertencem à família de ritmos ternários, dotados de mil variações e
possuidores de uma consistência artística, que lhes permite atravessar décadas
e décadas. O chamamé chega a ser fanatismo nos três lados da bacia do Prata:
na Argentina, no Paraguai e no Brasil, principalmente na área ocupada por
Mato Grosso do Sul.
Com
a intensa penetração gaúcha em quase todo o Estado, o fandango, a milonga, e
outros gêneros sulistas, em geral, são cultivados nos Centros de Tradição Gaúcha.
O xote tem transito garantido nos festejos juninos e o vanerão é presença
obrigatória nos bailes do interior e até da capital. A contribuição paulista
provém dos gêneros rurais, como o cateretê, o arrasta-pé, que existe tanto
em Minas como em São Paulo.
Ainda
segundo Paulo Simões, não existe a música do Pantanal. Pode-se até
mencionar o cururu e o siriri. que é um resquício cultural, que sobrevive em
cidades de densidade populacional suficiente, para reunir dez cumruzeiros que
dancem o siriri. Só que essa música não rola em todo o Pantanal, onde as
antenas parabólicas veicu68
Iam
as músicas tocadas e cantadas no Brasil inteiro, ligando o Pantanal à aldeia
global.
Ainda
seria preciso lembrar o samba, presente nos carnavais de Corumbá, o rock1 a música
pop e a música popular brasileira, influências recebidas através dos meios
de comunicação de massa. Em entrevista concedida ao Jornal da Cidade, de Campo
Grande, de 23 a 29 de dezembro de 1990, José Octávio Guizzo dizia, "ser
impossível definir o ritmo dos músicos de nossa região". E
acrescentava: "Eu particularmente acho que pelo proces80 que está sendo
feita a colonização de Mato Grosso do Sul e também pela Divisão do Estado,
que é recente, ainda não temos um ritmo definido. Acredito que ainda estamos
em processo de formação musical'1. E continuava: não podemos ignorar que
dentro deste Estado há diversas realidades culturais. A realidade cultural do
Bolsão mato-grossense é completamente diferente da existente no Cone Sul, que
chamamos região da Baixada Paraguaia e da região do Pantanal". Comentando
sobre o monopólio exercido sobre nós pelos grandes centros, terminava: "a
mídia e Jetrônica do eixo Rio/São Paulo nos impõe o que acha que deve ser
veiculado. Quer dizer, no processo cultural sempre fomos objeto e nunca
sujeito de nossa própria história. Só ficaremos livres disso, quando
acabarmos com esse monopólio. Persistindo nisso, vamos permanecer nivelados
por baixo, porque sempre haverá algum tipo de pausterização". De tudo se
conclui, que á impossível passar régua e compasso na música de Mato Grosso
do Sul. Ela existe e se afirma com suas diversidade, suas características próprias,
caminhando em direção à maturidade. Absorve influências, mas quer
preservar o verdadeiro eu.
FESTIVAIS
De
grande importância na afirmação dos compositores foram os festivais de música,
que aconteceram em Campo Grande no final dos anos sessenta e início dos anos
setenta. No primeiro Festival da Música Popular Brasileira, realizado em Campo
Grande, em 1967, a música vencedora MANE BENTO VAQUEIRO NO PANTANAL consagrou
o autor da letra, José Octávio Guizzo, que se revelou através dos anos
acurado pesquisador da realidade deste Estado. No II Festival em 1968, Paulo
Simões e Geraldo Espíndola mostraram através do grupo OS BIZARROS o potencial
criativo que seria a marca de ambos pelos anos afora. Ao longo do tempo, os
festivais foram abrindo espaço para nomes da maior importância no cenário
musical sul-mato-grossense. Um dos maiores foi Antônio Mário da Silva, músico
dos mais competentes, capaz de dominar diversos instrumentos. Dos festivais saíram
o Grupo ACABA, detentor de prêmios, com composições que refletem a vida do
homem pantaneiro, Rubens Aquino e José Boaventura, autores de lindas composições,
como VIOLEIROS, MUNDO SILENTE, FAZENDA GARIMPO. Tetê e Celito Espíndola
participaram de diversos festivais e Aurelio Miranda atualmente o compositor
mais expressivo de nossa música sertaneja, tornou-se conhecido graças aos
festivais de música, que funcionaram durante largo tempo como o grande espaço
de divulgação de nossos valores musicais.
Existe
hoje em Mato Grosso do Sul um grupo de compositores e intérpretes da melhor
qualidade. A maioria deles começou nos festivais, que, à semelhança de tantos
outros, realizados nos cirandes centros brasileiros, descobriram talentos,
estimularam vocações. É preciso ressaltar
a família Espíndola: Tetê, Geraldo, Celito1 Alzira e Jerry que produzem música
desde há muito, ganhado prêmios,
feito sucesso em apresentações, gravado discos, nos quais evidenciam a seiva
criadora haurida da árvore familiar. Paulo Simões1 fazendo parceria com
Almir Sater, Guilherme Rondon, Geraldo Roca e Geraldo Espíndola é um
manipulador das palavras, com letras de grande sensibilidade. O Grupo ACABA, há
vinte e cinco anos na estrada, incorpora elementos indígenas a criações que
remetem às lembranças de cada um dos músicos. Fabricando seus próprios
instrumentos plástico sonoros, são donos de uma música, reconhecida como
excelente, por críticos, como Roberto Moura e Ricardo Cravo Albin. Guilherme
Rondon, possui ótimas composições, gravadas por Nana Caymmi1 Lucinha Lins e
está sempre criando novas melodias. Almir Sáter é exper. em diversos instrumentos,
salientando-se na viola caipira, que lhe deu fama internacional. Tem belas
composições que interpreta com sensibilidade. Outros músicos importantes são:
Lenilde Ramos, Paulo Gê, Carlos Colman, Geraldo Ribeiro1 João Figar, Claúdio
Prates, Pedro Ortale, Toninho Porto, Zê Dum Sandra Menezes, Emilce Tomé.
A
falta de um pólo musical na região e a não existência de uma gravadora mantêm
nossos artistas ligados à província, onde são difíceis as oportunidades de
crescimento. Sem o contato com outros artistas, sem a possibilidade de
participarem de cursos e seminários, com a ajuda oficial cada vez mais
restrita, nossos músicos subsistem pela vontade de comunicar-se através da música,
que lhes dá consciência do sentido da existência.
MÚSICA SERTANEJA
A
música sertaneja, assim chamada, porque fala da gente do sertão, de seu
contato com a natureza, em canções simples e despojadas, em que o motivo
principal é quase sempre o amor desprezado, é uma das mais amadas e celebradas
em Mato Grosso do Sul. Executada não só nas casas e bailes de fazenda, conta
com numero505 adeptos nas cidades e na capital, que sabem de cor as melodias e
não perdem um programa de rádio, em que elas sejam executadas. Cada emissora
tem o horário especial a ela dedicado, e para isso conta com um locutor exper."
em imitar a fala do sertanejo, e nos truques que mantêm o ouvinte atento a tudo
que o programa veicula. A história da música sertaneja de Mato Grosso do Sul,
como a de outro estados brasileiros, construi-se em torno de duplas que deixaram
no ar a presença de seus desempenhos. Todas elas são lembradas pelo calor de
suas melodias, pela emoção que transmitiam ao público. Compositores, como
Paulo Simões, confessam a influência recebida das músicas de paixão,
tormento, vingança, de Délio e Delinha.
Geralmente,
essas duplas costumavam-se exprimir em português, em castelhano e até em
guarani, como acontecia com Bete e Betinha. unidas pelos laços da música e do
casamento à outra dupla sertaneja, Rodrigues e Rodriguinho. Os dois casais
apresentavam-se num circo, onde propriamente moravam. Bete e Betinha, Rodrigues
e Rodriguinho viveram juntos dezesseis anos. Entre um rasqueado e uma polca,
Betinha e Rodrigues tiveram quatro filhos, Bete e Rodriguinho, três. A última
gravação da dupla Bete e Betinha aconteceu em 1965, depois do que passaram a
se apresentar em novenas, festas de santos. Com ~ dificuldades por que passa a
música sertaneja, ganham a vida dando aulas de acordeon e pintura, vendendo
produtos de casa em casa, sem nunca deixar de lado, a sanfona e o violão. Outra
dupla de destaque é Romance e Romeirinho, que percorreu o Estado de ponta a
ponta, cantando em rádios, circos, salões paroquiais1 exposições agropecuárias,
praças públicas. A história da música sertaneja é inseparável do itinerário
do circo, que era o palco desses cantores. Circos como Novo Caçula, Goiânia,
Arco-íris, Carlão, Babilônia, que povoaram de 50-nhos a alma de crianças e
adultos de outros tempos, abrigaram em seu espaço a ternura da música
sertaneja. Nesses circos, as duplas, além de cantar, participavam de dramas,
comédias, monólogos. A dupla Amambai e Amambai, que esteve junta durante
dezesseis anos, evoluiu para o trio Ado: Amambai, Amambai e Dm0 Rocha, com
discos gravados e domínio de palco. Em depoimento dado ao livro MEMÓRIA DE
JORNAL, de Américo Calheiros, confessaram-se descontentes com a falta de
valorização do próprio trabalho pelas emissoras de rádio, que sempre
queriam pagar-lhes aquém do merecido. Dm0 Rocha é considerado o rei do
chamamé sul-mato-grossense. Tem mais de treze LPS gravados, nos quais se
evidencia o domínio, que exerce sobre a sanfona. Sem dúvida, o compositor
sertanejo mais conhecido, dono de inspiração larga, que o levou a compor
mais de setenta canções em homenagem a Coxim, sua terra natal, foi sem dúvida
Zacarias Mourão, barbaramente assassinado, quando tinha tanto para brindar
seus ouvintes. A música FOI UM BELO MATO GROSSO é um canto de saudade desse
guerreiro do cancioneiro popular sul-mato-grossense:
Fui
conhecer um belo Mato Grosso
Lá
encontrei o meu primeiro amor
Sinceramente
o que me deixa triste
é
viver longe dessa minha flor.
É
preciso lembrar Zê Correa, o rei do chamamé, que encantava o público com
seu acordeon e que também morreu assassinado. Deixou uma dezena de discos
gravados.
Hoje
a dupla mais representativa da música sertaneja em nosso Estado é Tostão e
Guarani, donos de um circo, com discos gravados e enchendo estádios e teatros
com a beleza de suas interpretações. Dessa dupla, que foi antes o trio
Cruzeiro, Centavo e Tostão, seguiu uma estrada solitária o Cruzeiro, cujo
nome é Aurélio Miranda, o mais premiado de nossos compositores da música
sertaneja Sua vida pode ser conhecida e analisada pelo longo depoimento que
nos deu.
Apresentadores
de rádio e TV, como Ramon Achucarro, Juca Ganso, valorizam sobremaneira a música
sertaneja.
Exemplos de músicos e movimentos
musicais de campo Grande
PAULO
SIMÕES
Subverteu todos os valores convencionais, para criar uma linguagem sem
fronteiras entre o antigo e o moderno, o brasileiro e o universal. A solução
estética que mais lhe agrada é obtida através da exploração de diversos códigos,
que analisa, estuda e submete ao próprio. Acostumado desde criança a manter as
antenas ligadas em sons, que vão de Dalva de Oliveira, Lupicínio Rodrigues,
Roberto Carlos, Délio e Delinha, a Beaties, Bob Dytan e Stones, aprendeu com
cada um deles o prazer de brincar com os signos, para viajar em torno da
realidade e assim justificar sua existência em Mato Grosso, no Brasil e no
mundo. Inteligente, inquieto, está sempre buscando, de sorte que nunca está no
lugar onde pensamos, porque uma viagem ao Pantanal, a São Paulo, ou ao Rio jaó
atraiu para a aventura de descobrir sentidos imprevistos, que resultam numa
composição, que irá enriquecer o cancioneiro brasileiro. Atento a mudanças,
fez parte de todos os movimentos musicais do Estado, desde os Festivais, dos
fins dos anos sessenta e da década de setenta, sempre se fazendo notar pela
maneira original de explorar os signos lingüisticos e musicais, para deles
retirar algo novo. Impossível ouvir TREM DO PANTANAL, composição sua e de
Geraldo Roca, sem se sentir possuído pela magia dos versos e da melodia. TREM
DO PANTANAL é um hino do sentimento dos mato-grossenses, que viajam com ele
"sobre todos os trilhos da terra". SONHOS GUARANIS, som música de
Almir Sater, remete-nos à fronteira de onde viemos, "onde o Brasil foi
Paraguai", na qual residem os indícios de uma identidade à espera de
decifração. Outras composições suas, como LOBO DA ESTRADA, COMITIVA ESPERANÇA,
percorrem o Brasil na voz de cantores fa73mosos1enquanto Paulinho, no seu
jeito manso e ao mesmo tempo contestador, continua
firme na missão de interrogar, descobrir, sem nunca se deixar seduzir
pelo triunfo. Em sua linha de ação, só há lugar para a verdade.
Entre inspiração e trabalho, atento
aos menores ruídos do universo, em que se situa, Paulinho é o grande
estimulador dos talentos jovens de nosso Estado. Cada um deles tem uma história
a relatar sobre o apoio que recebeu desse compositor, que não cede a convenções,
grita contra a injustiça, e está em permanente luta pela melhoria da situação
do artista em nosso Estado. O disco PRATA DA CASA, o filme COMITIVA PANTANAL, o
disco PANTANAL ALERTA BRASIL, registros de maior importância da vida artística
sul-mato-grossense, são em grande parte produto da audácia e da experiência
de Paulinho.
Em 1981, coordenou o projeto RAÍZES
DA MÚSICA EM MATO GROSSO DO SUL, estudo dos mais sérios, financiado pela
antiga FUNARTE, que o revela como excelente pesquisador de nossa música.
Infelizmente, o resultado do trabalho não foi publicado, por falta de interesse
da Universidade Federal, a quem cabia a responsabilidade do projeto.
Como elemento catalisador da cultura
do Estado, preocupado em detectar e agrupar tendências e parceiros,
Paulinho faz permanente metalinguagem do imaginário sul-mato-grossense.
Impossível qualquer registro de nossa história musical, qualquer trabalho
sobre a arte em nosso Estado sem a presença desse lutador, que à maneira de
Carlitos, utiliza o bom humor como tempero de suas criações e caminha numa
estrada de pó e de esperança, antenas ligadas em sons universais.
PAULO
SIMÕES, nasceu no Rio de Janeiro,, no dia 12 de fevereiro de 1953. Seu pai,
Paulo Jorge Simões Correa, divisionista histórico, que na época trabalhava em
Cuiabá, não admitiu que o filho nascesse na antiga capital do Mato Grosso uno.
Na hora do parto, colocou minha mãe no avião e me mandou nascer no Rio. Logo
depois, ele retornou a Campo Grande, para onde me trouxe com poucos dias de
vida, o que faz com que me considere muito mais campo-grandense do que carioca.
Aqui fui criado até os dezoito, dezenove anos.
Minha mãe, Maria Gilka Rocha Simões
Correa, é natural da cidade de Parintins, no Amazonas. Tanto que assinava as crônicas,
que escreveu nos jornais locais, desde os anos quarenta, com o pseudônimo de
Amazonense. Meu avô paterno, Adelmar Rocha, foi deputado federal e membro
da Academia Piauiense de Letras, o que explica meu lado literário.
Fui criado em Campo Grande, que na época
de minha infância era uma típica cidade do interior brasileiro, com menos de
cem mil habitantes. Minha primeira experiência musical aconteceu aos cinco ou
seis anos de idade, no Colégio Pequenópolis, dirigido na época por minha
tia Aldeci Rocha. Numa das muitas experiências, que me marcaram naquele
ambiente, onde predominava acima de tudo a liberdade, fui convencido pôr um
pequeno "loba" doméstico a mostrar numa festa de fim de ano algumas
das tendências musicais, de que nem sequer tinha consciência Quebrando o
protocolo, apossei-me do microfone e lasquei uma interpretação de RISQUE e
INDIA, o que mostra que desde menino eu já gostava de misturar a música
paraguaia com a brasileira. Depois disso, meu convívio com a música aconteceu,
segundo o sistema tradicional brasileiro: observando as aulas de violão de minhas
irmãs.
Meu acesso à musica através do rádio
e do toca-discos, que naquele tempo se chamava vitrola ou eletrola. O repertório
dos professores de música resumia-se à bossa nova, polcas e guarânias clássicas.
Como cobaia de minhas irmãs, aprendi com elas uma música SERENÓ EU CAIO EU
CAIO que sistematicamente passei a tocar, como um robô, nas festinhas de casa.
Dos treze aos dezesseis, que foi o
desabrochar da adolescência, passei a prestar atenção aos musicais da TV, a
ouvir Os Beatles e Roberto Carlos, pelo rádio. Os Beatles e Roberto Carlos são
anteriores à TV em Campo Grande. A partir daí, foram muitas e variadas as
informações musicais recebidas. Lembro que numa de minhas viagens ao Rio,
para gozar férias, ouvi LOVE ME DO, dos Beatles, que estava sendo tocada no rádio,
em uma das cabines do trem. A música estava sendo lançada em Mato Grosso do
Sul justamente no ano, em que estourava nos Estados Unidos. Não sabia que música
era aquela, mas quis fazer algo parecido e assim que cheguei a São Paulo e ao
Rio1 fui correndo procurar os discos deles e os do. Roberto Carlos. Voltei a
Campo Grande, imbuindo do desejo de formar um conjunto musical, o que só veio
acontecer em 1967. No Rio, onde convivi com um meio musical mais competitivo,
mais sofisticado, em cada rua havia um conjunto imitando os Beaties. Em Campo
Grande, morria de inveja dos amigos Antônio João Figueiredo, Paulo Celso
Saraiva, Edson Mesquita e João Batista, que faziam imitação local, num
conjunto denominado MADS. Imediatamente, tentei formar meu grupo com o Geraldo
Espíndola e o Maurício Barros Almeida, que mais tarde foi parceiro de Almir
Sater na dupla Lupe e Lampião. Em 1 967,estudáva-mos os três no Colégio
Estadual Campo-grandense e da deglutição de nossos Ídolos, que eram os
Beatles, os Rollings Stones e Roberto Carlos, surgiu o grupo OS BIZARROS,
com o qual nos inscrevemos no ciclo de festivais de música, que estava começando
em Campo Grande. Éramos um grupo anárquico, porque nem instrumentos tínhamos.
Minha família, sem grandes tradições musicais, não fazia muita fé em mim.
Se você não é filho de músico, tem que passar por longo processo de
convencimento da família de que aquilo não é uma loucura, principalmente se
esta determinou que a grande profissão é a Advocacia, a Medicina ou a
Engenharia. Em Campo Grande, nos anos sessenta, setenta e não sei até quando,
sempre se pensou assim. O fato é que formamos nosso grupo e com ele causamos
impacto, mais cultural, creio eu, do que musical. Ensaiávamos com
instrumentos elétricos emprestados, graças à colaboração inestimável do
Antônio Mário, do Agápito1 do Nascimento, músicos, que acreditavam na gente.
O Nascimento era um grande cantor. o Antônio Mário, um músico completo. Os
dois infelizmente já se foram para sempre de nosso convívio. Eles e o Agápito,
que é um homem de sete instrumentos1 não viam a gente como filhinhos de papai,
que estavam ali enchendo a paciência, mas como pessoas inteire?>sadas em música,
tanto que depois de tocar no sábado à noite, iam ao Rádio Clube, domingo de
manhã, para ligar os instrumentos e ficavam por lá, aturando nossos ensaios.
OS BIZARR3S funcionavam como um
laboratório interessantíssimo de. idéias, reunindo gente preocupada em
discutir música, na busca de linguagem própria. Conjuntos e bandas são para
isso, é assim que funcionam no imaginário adolescente. Quero aqui ressaltar o
papel desempenhado pelo Maurício na história dos BIZARROS. Seu talento nunca
foi jogado na linha de frente, mas além de atuar na dupla, já citada com o
Almir Sater, trabalhou com o Geraldo Espíndola e comigo, em época posterior,
no conjunto EXPRESSO ARRASTA PÉ.
Faziam ainda parte dos BIZARROS o
James de Deus e o João Batista. O James era o nosso homem dos mil instrumentos,
que nos ensinava tudo, desde diferenciar o som de um teclado do de um baixo, de
uma bateria e até como ligar os aparelhos. Cada um de nós tomou seu rumo,
sumiu do mapa, o que lamento profundamente por nós, pela cultura.
Depois dos BIZARROS, me lancei na
aventura de ir para os Estados Unidos, com apenas dezesseis anos1 exatamente após
nosso grupo fazer sua apresentação oficial no "Primeiro Festival da Música
Popular de Campo Grande", que aconteceu no Clube Surian, no fim de 1967.
Fomos contemplados com o primeiro prêmio
de interpretação, com a música 2001, dos Mut antes, uma síntese do
momento, que estávamos vivendo. A música, com acordes de viola caipira,
tocados pelo Liminha, que é hoje produtor em Los Angeles, prosseguia com um
rock doidão, no estilo Mutantes. Quero mencionar que o disco dos MUTANTES me
chegou às mãos, muito antes do Festival, graças a meu cunhado1 Pedro
Ernesto Prudêncio, que na época era advogado na Poligram. Assim que ouvi a música,
decidi que devíamos tocá-la no Festival, pois era o material de que precisávamos,
não para explicar, mas para confundir.
Após o Ano Novo, eu e Maurício fomos
para diferentes lugares dos Estados Unidos, eu para uma cidade satélite da
grande Detroit e ele para uma cidade satélite da grande Los Angeles. Um detalhe
significativo é que estávamos em 1969, o que me permitiu ver o homem descer
a Lua, Nixon ser eleito, os Estados Unidos começarem a afundar no Vietnã. Foi
também o ano do Festival de Woodstock, a que nem pude assistir direito,
porque em agosto voltei ao Brasil, após. sua realização.
Depois de toda a explosão, que tomou
conta dos Estados Unidos naquela época, eu e Maurício olhamos cada um na
cara do outro e. decidimos "vamos detonar". Estimulados por tudo,
que tínhamos visto lá fora d~ dicamos dois anos (69 e 70) a radicalizar as
propostas que OS BIZARROS tinham ingenuamente sugerido no Festival de 1968.
fizemos várias apresentações nos clubes, onde aconteciam os circuitos
musicais da época, numa demonstração da energia, que nos dominava.
Geraldo Espíndola, que se havia
mudado para Curitiba, após o Festival de 68, retornou a Campo Grande, em 1970.
Com ele continuamos a proposta dos BIZARROS. Participamos do Festival
Estudantil do Surian, dirigido e animado pela professora Gloria Sá Rosa e
pelo Nelson Nachif. Nessa ocasião, Geraldo e eu começamos a exercitar um dado
novo em nossa história musical, que foi a parceria, porque no Festival de 68 a
gente mal se conhecia1 apenas tínhamos feito uma ou duas músicas juntos.
Em 1969, na ausência do Geraldo, coloquei duas músicas novas no Festival do
Surian. Uma era algo parecido com um baião e foi composto numa aula do Colégio
de Aplicação, batucando na carteira. Estava começando a expor o lado da criação
própria, à procura de caminhos tentando tudo. No final dos anos 70, eu e o
Geraldo fizemos um rock chamado ORA, ORA, ORA. Nesse mesmo ano, despontou mais
um nome em nossa música, Tetê Espíndola, que fez o vocal das duas músicas,
que tiraram o segundo e o quarto lugar no Festival. Só tomei consciência do
fato, quando fiz uma pesquisa sobre música, lendo um recorte de jornal. Uma
delas era POR QUE EU GOSTO DELA POR QUE ELA GOSTA DE MIM que, segundo uma
entrevista, que fiz com a Tetê, foi algo que a marcou. No ano seguinte, no
Festival de 1971, ela ganhou o prêmio de melhor intérprete, o que a faz
sentir-se mais madura, como cantora.
No final de 1 970,fui para o Rio de
Janeiro cursar a Faculdade de Jornalismo, uma forma de fugir do que eu na época
chamava província. Passei a ter uma relação irregular, ciclotímica, com a
música daqui. Morando no Rio, inverti o processo de busca de novidades, pelo
retorno, de vez em quando, a Campo Grande. Fui fazer Comunicação na PUC, do
Rio, em parte por uma questão de vocação, revelada no teste, que fiz no colégio
de Aplicação, em parte para escapar ao destino familiar de filho de advogado,
e irmão de duas advogadas. Fugindo a um conjunto de circunstâncias, que me
empurravam para a advocacia, busquei no Rio a única faculdade, que não havia
na época em Campo Grande: Comunicação. De repente, o destino fez com que a
minha família se mudasse para o Rio de Janeiro, para onde meu pai, como juiz
militar, foi transferido. Em 74, me formei em Comunicação, numa época em que
havia polivalência de qualificação1 o que significa que posso atuar em
jornalismo, relações públicas, rádio, jornal,. TV, cinema e até numa tal de
editoração, de que ninguém me falou a respeito na PUC, além de pesquisa em
documentos oficiais. Saí da PUC com o diploma debaixo do braço, com todas as
opções em aberto, querendo, acima de tudo, ser artista, o que me parecia a
maior contribuição, que poderia oferecer à coletividade. Passei meus anos de
formação universitária, sob o domínio da ditadura. Vivi uma farsa
nacional, de que participei, mais ou menos conscientemente, só que tive a
sorte de não me iludir com o canto das sereias iradas, de modo que entreguei
meu diploma à minha família, que ela o merecia, embora eu tenha bancado
parte de meus estudos com uma bolsa parcial.
Naquele momento, eu não sabia o que
fazer, o que minha música O TREM DO PANTANAL expressa bem. A perplexidade de
uma geração diante de tantos e de nenhum caminho está refletida em seus
versos. Foi feita em 1975, em parceria com o Geraldo Roca, artista de grande
importância na formulação de nossa música. Ficamos anos e anos, de 72 a 78,
discutindo coisas mais ou menos assim: Por que não cuidar da fazenda do avô,
ser um advogado ou um jornalista de sucesso, em vez de ficar insistindo
nessas músicas, que ninguém quer ouvir? "Quem iria perder seu tempo com
misturas esquisitas, exóticas, ouvindo Délio e Delinha, Dm0 Rocha, Bob Dylkan,
Louis Armstrong, Johnny AIf, como fazíamos?
A companhia do Geraldo Roca foi
fundamental em minha carreira, por ter sido ele o cara, que me ensinou o exercício
da autocrática, do domínio do ego, tão naturais em sua condição de carioca,
habitante de uma cidade grande. Lembro-me de que, antes de conhecermos o Geraldo
Roca, eu e o Geraldo Espíndola compúnhamos, sem preocupação com a qualidade,
que deve nortear o princípio da criação artística. Como não tínhamos
competidores, tudo, que fazíamos, nos parecia ótimo. Foi o Roca que estimulou
nosso senso critico. Essa relação dos Beatles com a cidade do interior foi a
mesma, por que passamos, aprendendo a exercitar o coleguismo de infância, a
brincar com os mesmos brinquedos, na mesma hora
Quando o Geraldo Roca entrou na seara
do Paulinho Simões e do Geraldo Espíndola e lhes disse que o rei estava nu,
que esta ou aquela música era uma imbecilidade, estimulou-lhes não apenas o
lado competitivo, autocrítico, mas levou-os a pensar em arte como estratégia
de vida e não como fruto de um talento aleatório, que é mais ou menos o que
acontece nas áreas periféricas, onde existem pessoas talentosas, mas
desligadas do todo.
A música de Mato Grosso do Sul começou
a brotar na minha orelha, na minha sensibilidade, desde garoto, ouvindo a música
paraguaia, a música fronteiriça, que fazia parte do cotidiano de Campo Grande
e também a música popular brasileira, urbana, tradicional, folclórica,
transmitida pelo rádio e pelos discos de meus pais. Na época, as crianças
tinham que se contentar com os discos dos pais, ao passo que hoje minha filha
diz o nome do disco, que deseja, e eu o compro imediatamente. Costumava ouvir
Noel Rosa, Pixinguinha, Emilinha e Marlene nos discos de 78 rotações de meus
pais. Histórica e 50-cialmente falando, a música paraguaia, unindo-se com a
sertaneja, a paulista, a mineira e a gaúcha, que chegou até nós, através da
Guerra do Paraguai, construiu nossa placenta musical. A essas influências
acrescentem-se pitadinhas da música árabe, que devo ter ouvido em reuniões
da família, a japonesa que devo ter escutado nas sessões do cine Santa Helena.
Contando-se com as influências (veiculadas pelo rádio e pela televisão) a
partir dos anos sessenta, obtém-se esse produto multifacetado, que se denomina
música sul-mato-grossense e que ainda precisa de um estudioso, para separá-la
da música do antigo Mato Grosso. Somos parte de um tronco único, que1 política
e administrativamente, foi dividido a partir de 1977. Alguns músicos, como os
Espíndola, ficaram com um pé no Mato Grosso, nessa relação mágica que
possuem com a Chapada dos Guimarães. Já eu e o Almir Sater não temos essa
ligação com a paisagem cuiabana. Tanto na composição PIRARETA, de Celíto e
Tetê1 quanto na composição CUIABÁ, de Tetê Espíndola e Carlos Rennó que
faz parte do LP da Tetê, PÁSSAROS NA GARGANTA, eu sinto a influência indígena
ancestral, produto de arquétipo e não ~e pesquisa. Por outro lado, vejo nas
composições do Almir Sater: a presença da música árabe, inclusive nas
instrumentais. Há uma composição dele, MAURA, em que, a partir do titulo,
talvez de forma inconsciente, ele expressa a relação com o mundo árabe, de
seus antepassados. Já o Grupo Acaba está ligado às raízes pantaneiras e indígenas.
Carlos Colman junta elementos que absorveu do pai o sanfoneiro Altair Colman. Além
disso, ele tem influência da música internacional. Os irmãos Espíndola são
todo um universo de nuanças, que eu levaria tempo para esmiuçar, não sei se
com a necessária competência Guilherme Rondon tem a mesma formação híbrida
que eu, dai nossa facilidade de entendimento. Foi criado em fazenda do
Pantanal, tem intimidade com os temas, que expiramos em nossas músicas, mas
possui formação urbana, adquirida em São Paulo, na escola do Zimbo Trio, o
que se reflete nas harmonias, a meu ver, as mais bem construídas entre nós.
Todos esses efeitos fazem parte da fisionomia multifacetada da música de Mato
Grosso. Sobre as influências básicas recebidas, devo dizer que, como qualquer
artista de sensibilidade1 disponho de significativo repertório de referências,
absorvidas, sem qualquer tipo de consciência crítica, principalmente na época
de minha infância. Nós, nascidos e criados em Campo Grande, fomos expostos a
uma espécie de caldo cultural, a um redemoinho mental, que nos obrigava desde
os cincos anos de idade a acordar às seis horas da manhã, para ir à escola,
isso durante longos anos, numa época anterior à TV. Desde o momento em que
acordava, já escutava os altos brados do rádio do vizinho, pois é uma
característica da música fronteiriça ninguém escutar polca paraguaia com o
volume baixo. A Tetê me contou numa entrevista, que, quando criança, ficou
impressionada ao ver numa serenata, um grupo de paraguaios, cantando de
forma aberta, pondo tudo para fora, como se quisessem lograr a alma no infinito.
Lembro-me de que ia da casa de meus pais, que ficava na Rua Rui Barbosa até o
Colégio Dom Bosco, ouvindo a mesma música, o mesmo programa de rádio. A
melodia penetrava em meu subconsciente, sem que eu tivesse a preocupação de
saber, se gostava ou não dela. Só fui revelar quais os meus sentimentos em
relação à música paraguaia anos depois, quando alguém me fez uma pergunta
nesse sentido. Aí as melodias já estavam disseminadas em meu subconsciente,
sem que eu percebesse. Como não era autorizado a tocar nos discos de meus pais,
ouvia-os sem saber de que tipo de música se tratava. Lembro de ter escutado the
Platters e Chuck Berry, num disco que minha avó me deu. Escutei Elvis Presley
através de minha irmã mais velha, que também gostava da orquestra de Hermínio
Jimenez. Hoje os críticos já traçam o perfil de nossa música mas, há seis
ou oito anos atrás, como não tínhamos importância no mercado, a falta de
informação tornava esta tarefa impossível. Os primeiro discos do Almir
foram criticados, por acharem que havia mistura de xaxado em suas composições.
Ora eu tenho guardados em meus arquivos esses discos e posso dizer que isso é
totalmente falso. De modo geral, a crítica usava o termo guarânias para
classificar tudo aquilo, que ignorava. Acontece que a guarânia é um gênero
musical cuja história é essencialmente diferente da lambada, que dura somente
uma estação. A guarânia tem uma história de cinqüenta anos, que retoma a
tradição européia, como outros gêneros de música paraguaia, que oscilam
entre o popular e o erudito. Maestros como Hermínio Jimenez, que pode ser
considerado um Tom Jobim do Paraguai, faziam guarânias e arranjos para guaránias,
de excelente categoria. Talvez todo esse "know how" musical seja fruto
do esforço do pai de Solano Lopes, para transformar o Paraguai em algo mais que
uma mera colônia inglesa. Infelizmente, essa densidade de formação da guarânia
não é percebida pelos críticos desatentos, que usam expressões
depreciativas, como "meras guarânias" para se referirem a ela.
A música de Mato Grosso do Sul existe
e está sendo feita por artistas como Almir Sater, Tetê, Alzira, Geraldo e
Celito Espíndola, João Fígar, Carlos Colman, Denise dai Farra, Lenilde e
Lenilce Ramos, Grupo Acaba, Tostão e Guarani... São tantos, que me é difícil
enumerá-los. E um produto multifacetado1 diferente da música popular
internacional, ou da "world music't, que também é multifacetada. A nossa
provém de diversos pontos cardeais. A música branca e rural tem sua origem
em Minas e São Paulo, de onde saíram as entradas e bandeiras e as primeiras
levas de desbravadores brancos portugueses, que ocuparam o espaço chamado hoje
de Mato Grosso do Sul. Numa camada abaixo, pode-se considerar a existência ou
resistência de uma música autóctone, indígena, muito mal conhecida e
registrada, mas presente no ar. Virando-se à esquerda, deparamos na fronteira
com o Paraguai e a Bolivia, com a colonização espanhola, com sua história de
idas e vindas de fronteiras, de marcos, de influências dos ritmos plátanos,
entre os quais eu englobaria a polca paraguaia, que é uma derivação regional
da polca erudita. A polca, a guarânia, o rasqueado e o chamamé fazem parte
da mesma família de ritmos ternários, dotados de mil variações e possuidores
de uma consistência artística, que lhes permite atravessar décadas e décadas.
No caso do chamamé, que é o que mais me interessa atualmente, ele chega a
ser quase uma religião. E fanatismo em três lados da bacia do Prata: na
Argentina, no Paraguai e no Brasil, principalmente na área ocupada pelos dois
Mato Grosso. Devemos considerar os estrangeiros, que se fixaram no Mato Grosso
do Sul no começo do século: sírios, libaneses, árabes em geral e os japoneses
de Okinawa. Historicamente, não podemos esquecer os gaúchos, que começaram a
se fixar em Mato Grosso do Sul, depois da Guerra do Paraguai, quando alguns
soldados das legiões brasileiras acharam este local tãoagradável1 que
resolveram ficar por aqui, estabelecendo-se no final do século XIX numa faixa
fronteiriça, que vai de Bonito a Ponta Porá. Com a implantação da ferrovia
Noroeste do Brasil, em 1914, intensificou-se não apenas o fluxo de mineiros,
de paulistas e de outras subdivisões de nacionalidades, que se dirigiam para cá,
como o das populações limítrofes do Paraguai e da Bolívia em direção a São
Paulo. Passou a haver uma mão dupla de influências e de trocas migratórias em
nosso Estado, que se prolongou até os anos 70.
Com o famoso "bom" econômico
do Brasil, Mato Grosso do Sul foi invadido por novas levas de mineiros,
paulistas, paranaenses, catarinenses e até nordestinos e gaúchos, que
ampliaram sua área de fronteira. A esse caldo sociológico acrescentaram-se
através dos meios de comunicação de massa as influências: norte-americana
(em primeiro plano), inglesa, francesa, italiana e espanhola. A partir daí,
pode-se estabelecer uma formulação para cada tipo de música regional
brasileira. Veja-se, por exemplo, a música gaúcha: ela tem traços
distintivos únicos, não pode ser confundida com a música baiana, que só nos
atinge através dos idolos veiculados pela mídia, ou a música mineira, que
penetrou sutilmente em nosso território com a ocupação mineira de MS e foi
redescoberta por nós nos anos sessenta com Milton Nascimento e o Clube da
Esquina. Com tantas influências, cada artista pôde fazer sua escolha,
desenvolver sua linha própria, principalmente a partir dos festivais dos fins
dos anos sessenta, nos quais surgiram os nomes dos irmãos Espíndola, José Octávio
Guizzo, de José Boaventura e Rubens Aquino, dos irmãos Almeida (José, Virgílio
e Mário> de Lenilde Ramos, que mais tarde organizaria o trabalho altamente
original do grupo PORANGUETE. Através dos festivais de música sertaneja,
promovidos pela TV Morena, nomes como os de Aurélio Miranda, Tostão, Guarani e
Zacarias Mourão, proveniente, de duas ou três gerações anteriores,
passaram a ser conhecidos do grande público.
Em minha modesta opinião, podemos
pensar a música de Mato Grosso do Sul como um leque de influências, que vai
desde a platina até a paraguaia, uruguaia, gaúcha, paulista, mineira,
nordestina, etc.
A influência
platina não se reduz à paraguaia, como muita gente imagina. Ela vai até
antes,
que é a meca do chamamé, em sua forma argentina. O chamamé correntino é
mais europeu, mais formalista do que o nos50. Os músicos de lá têm
uma postura erudita meio das sigla,
tanto que o chamamé deles é tocado quase na ponta dos pés. Esse mesmo chamamé
floresce no Paraguai de uma maneira mais solta e em Mato Grosso,
principalmente em Mato Grosso do Sul, pela proximidade fronteiriça com o
Paraguai, de maneira mais diluída, porque etnicamente somos bem mais
multifacetados que o Paraguai. Embora não conheça pessoalmente o Paraguai, sei
que Assunção nem de longe é o caldeirão
de raças, que é a marca de Mato Grosso do
Sul. O maior problema dos paraguaios é a presença dos brasileiros, invadindo a
fronteira e criando as
questões de toda ordem. Ainda do lado oriental, temos a guarânia, a
polca, o rasqueado. Abaixo da vertente oriental, observa-se a influência gaúcha,
importantíssima, pela presença do povo do Rio Grande do Sul em nosso Estado,
antes e depois da Divisão. A migração gaúcha tornou obrigatório o vanerão,
que herdamos deles. Estará mal encaminhado o conjunto musical, que programe um
baile, sem incluir nele o vanerão.
Retomando
o tema da influência mineira, trago à baila a música CUITELINHO, recolhida
pelo Paulo Vanz uni e incluída pelo Marcus Pereira na sua coleção de música
popular brasileira, como folclore de Mato Grosso. Ao ouvi-la, concluí tratar-se
de uma toada, gênero comumente associado a Minas. Como a letra fala da Guerra
do Paraguai, deduzi que o tema rememora a aventura de algum mineiro, que
participou daquele combate. Como somos uma área carente de registros, não
posso dizer em que ano ela foi feita, mas pelos meus cálculos, já tem um século
de existencialismo nessa análise, porque CUITELINHO é o ponto de partida de
qualquer tentativa de compreensão da musicalidade
sul-mato-grossense. Ao vê-la mencionada nos compêndios, como folclore
mato-grossense, me pergunto: e onde estão suas irmãs? Por que um caso tão
isolado sobreviveu tanto tempo e com tanto sucesso? A contribuição paulista
provém dos gêneros rurais, como o cateretê, o arrasta-pé, que existem tanto
em Minas, quanto em São Paulo.
Eles
tem o cururu sertanejo, diferente do cururu folclórico daqui. Seria preciso
descobrir porque ambos têm o mesmo nome, que laços unem o cururu folclórico
dos grupos de viola de cocho e o curum gênero caipira rural paulista, incluído
em várias antologias de música caipira, que também exerceu influência na
cultura de nosso Estado. Aliás, a música VELHOS AMIGOS, que compus em 1978,
é um cururu, em sua versão inicial. Almir Sater fez uma adaptação e gravou-a
no disco dele, alguns amigos fizeram outras adaptações, mas até hoje ninguém
conhece a versão inicial, só minha e muito estranha Os dois maiores cultores
do cururu paulista, Zê, Carreiro e Carreirinho, estão ligados ao cumru indígena
E bom lembrar que José Ramos Tinhorão e outros pesquisadores registram o cumm
como um ritmo dos índios guarani. Repito que nos falta uma pesquisa sobre esse
ritmo estranho, e seus vários desdobramentos no tempo e no espaço.
Mário
Zan, nacionalmente conhecido, através a novela Pantanal, que divulgou CHALANA
de sua atuo-a, tem em seu repertório composições como SERIEMA
MATO
GROSSO e CIDADES DE MATO GROSSO, que. Pois bem, Mário Zan, que considero um
elemento de ruptura no contexto musical do Estado, não nos influenciou com
ritmos lá de fora, mas com ritmos, que ouviu por aqui.
Nascido em Veneza, Itália, veio com
quatro ou cinco anos de idade para São Paulo, onde aprendeu a tocar
sanfona. A primeira estada dele em Mato Grosso aconteceu nos anos
quarenta, quando o circo sertanejo de Nhô Pai e Nhô Fio aportou em Três
Lagoas. Antes do show, ele ouviu no rádio de uma barbearia, perto do hotel, uma
polca paraguaia Empolgado com a vivacidade do ritmo, que o transportava aos
acordes das melodias italianas, foi para o hotel1 pegou a sanfona e compôs um
rasqueado instrumental, que denominou TRÉS LAGOAS. De forma estranha e
curiosa, Três Lagoas tem uma relação intensa com a polca paraguaia, que
outras cidades de Mato Grosso do Sul, próximas da fronteira. Por que is50
acontece, só os pesquisadores do futuro vão dizer. Para mim é um dado histórico,
um artista do quilate do Mário Zan ter sido influenciado por uma proposta
musical daqui. Aproveito o gancho para explicar que o rasqueado é a forma com
que os brasileiros do Centro Oeste tocam a polca paraguaia Tem um ritmo mais
lento e menos síncopes do que a polca paraguaia. Quase todas as músicas do Mário
Zan são rasqueados. A música paraguaia ou a platina, de modo geral tem uma
flutuação rítmica difícil de reproduzir. Não é qualquer um que consegue
tocar bem uma polca. O chamamé derruba músico famoso, pela dificuldade de
pegar o espírito de uma música estrangeira Os americanos, por melhores que
sejam, não conseguem tocar samba sem sotaque. Se um músico local quiser tocar
bem o chamamé, deve fazer como os Beatles, que se debruçaram nos seus ícones
americanos, (Chuck Berry, Robert Johnson) misturando influências e linguagens,
fazendo todo tipo de fusões, até obter o produto desejado. O problema não
é copiar esse ritmo desafiador, que é o chamamé, é entendê-lo. É o que eu,
Almir Sater e Guilherme Rondon tentamos fazer, porque o chamamé nos toca, nos
arrepia, provoca nossa sensibilidade a entendê-lo. Primeiramente1 através do
rádio, mais tarde pela TV e hoje pelo vídeo e até com ajuda de antena parabólica,
a música popular brasileira, de Noel Rosa a Lupicínio Rodrigues, chegando até
Luis Gonzaga, ou indo mais além, atingiu com suas influências a nossa música
regional.
É difícil conviver-se com esse
conceito de regional, porque se trata de mais um rótulo eficaz e eficiente,
para quem precisa escrever sobre o assunto. Eu, Paulo Simões, sou conhecido
como compositor regional, mas me sinto aflito, quando me colocam esse rótulo
"vai ver que acreditam, batem palmas, está dando até dinheiro, mas chega
o dia em que alguém me desmascara, e diz: - mas você também faz rocks, blues,
baladas, que compositor regional você é? "Eu e o Guilherme Rondon
compomos desde o "new chamamé" de Mato Grosso até blues, bossa
nova, o que a inspiração mandar. Então o rótulo funciona mais1 para quem
queira explicar, do que para quem faz Funciona para quem tem uma história
pessoal, uma tradição familiar, como o Almir Sater, que certa vez me chamou,
para ver um grupo de música árabe. Eu não consigo nem repetir o nome dos
instrumentos, quanto mais conhecer a origem deles. No entanto, eles existem,
fazem parte de nosso iceberg musical, ao qual pertencem também os japoneses.
Meu amigo Geraldo Rocha gravou um compacto alienígena com uma música
denominada JAPONÉS TEM TRÊS FILHOS, na qual explica de forma poética a fusão
racial, que existe em Campo Grande, onde são significativas as influências
guarani e japonesa. Temos aqui uma mistura de árabes com paraguaios, de árabes
para enfatizar por quantas influências somos atingidos. Temos ainda o lado ecológico,
que originou por exemplo o último disco da Tetê Espíndola. Seu trabalho com
os cantos dos pássaros do Pantanal e da Amazônia faz parte de uma vivência
pessoal, que talvez não seja compreendida em sua essência, por críticos do
Rio e de São Pau>o, com outros padrões e sistemas de valores diversos dos
nos808.Depois de longos anos, Geraldo Espíndola lançou o registro de sua
obra, o que deveria ter acontecido há muito tempo, visto que os fatos são dinâmicos
e tudo está mudando a cada instante. Eu aposto que até minha própria música
vai ficar defasada, depois de ouvir o disco do Geraldo. O disco que o Guilherme
Rondon e o João FIgar estão lançando e que, por acaso, tem várias músicas
minhas, talvez já esteja ultrapassado, em relação a alguns conceitos do ano
passado.
Quero registrar aqui neste depoimento
a importância do registro de nossa musicalidade. Mesmo o que não é
aplaudido nem adorado hoje, deve ser preservado, para que não se percam os índices
reveladores de nossa sensibilidade.
Passei pelo Pantanal, em 1975. Eu e o
Geraldo Rocha fomos a Corumbá, seguindo de lá para Santa Cruz e Machu Pichu,
no Peru, mas nem pensamos em visitar o Pantanal. Fizemos a música TREM DO
PANTANAL talvez só o efeito de algum raio místico, que nos atingiu, porque nem
estávamos preocupados com o Pantanal.
Em 1980, de volta do Rio de Janeiro,
disposto a realizar um trabalho coerente e conseqüente de exploração do
mercado regional, reencontrei o guilherme Rondon, pantaneiro de formação,
que me convidou a ir ao Pantanal. Lã nasceram duas músicas: PAIAGUÁS e ESTRANHAS
Coincidências. Mais tarde, nos idos de 82, comecei a ver o Pantanal de verdade,
mas superficialmente. Numa das vezes em que lá estive, em companhia do Mmir,
ele disse ao Bandeirão, que era o dono da fazenda onde nos encontrávamos.
- O Pantanal é demais
O
velho retrucou:
- Cê sabe o que é o Pantanal? Pra
vocês saberem, deviam sair por aí numa comitiva, levando bolada Vocês não
sabem de nada Vocês têm que pegar uma mula e sair por aí.
Foi esse velho que nos deu a deixa de
conhecer o Pantanal, através do olho pantaneiro, e não do civilizado, que
lá chega, todo arrumadinho, de avião.
Foi
por isso que fiz questão de dar crédito em meu trabalho sobre o Pantanal ao
Bandeirão. O Almir, jeitosamente, perguntou ao velho se nos emprestava as
mulas, ele prometeu, mas não cumpriu. Isso nem interessa mais. A partir daí, o
Almir e eu passamos a encarar a idéia de conhecer de fato o Pantanal1 saber o
que realmente ele era Fizemos um projeto, que envolveu o Governo do Estado, a
FUNARTE, a Embrafilme e que foi depois denominado '1Comitiva Esperança".
Assumimos os riscos de organizar uma comitiva, que em vez de boiada levava o
violeiro Almir Sater1 o violinista José Gomes, que é um artista de primeira
categoria, o compositor e letrista Paulo Simões.
A partir de certo momento, uma equipe
de filmagem da Tatu Filmes passou a gravar nossa aventura. Passamos três
meses1 rodando o Pantanal. Faço questão de registrar aqui a colaboração do
pecuarista Lúdio Coelho, nessa nossa loucura pelos caminhos do Pantanal, pois
temos com ele uma divida impossível de ser paga. O que fizemos de forma
idealista, romântica, a novela PANTANAL repetiu depois, com a necessária
sofisticação. Até hoje eu tento resgatar a credibilidade do projeto. Dentro
dele, as figuras de Lúdio Coelho e Wilson Martins são ímpares e
fundamentais.
Houve uma overdose de expectativas
musicais nessa viagem. Esperávamos encontrar artistas, pululando pelo Pantanal,
o que foi um engano. Achamos alguns isolados, que justificaram nossa ida até
lá. Um velhinho, Seu André Preto, que infelizmente não está mais com a
gente, foi talvez um dos únicos sábios vivos, que eu conheci até hoje sobre a
terra. Poeta, pantaneiro, negro e trabalhador. Descobrimos a realidade
pantaneira, em oposição ao pantanal-sonho. _De 1940 até 1960,0 Pantanal era
dividido em fazendas muito maiores que as de hoje. Nessa época, por
dificuldades de comunicação, o fazendeiro morava na fazenda, onde passava a
metade do ano. Quando viajava com a família, ficavam na fazenda uns três ou
quatro peões, tomando conta do gado, no tempo da enchente. As fazendas tinham
áreas de até vinte mil hectares, o que requeria maior número de peões.
Havendo maior densidade humana, surgia a possibilidade de cada uma ter seu peão
sanfoneiro, para alegrar as noites1 sem televisão ou antena parabólica. Como o
dono passava seis meses na fazenda, tinha interesse em investir na parte de
cultura e lazer. Mandava seu avião levar uma sanfona, qual precisava ser
consertada, ou se encarregava de comprar um violão.
A
partir dos anos sessenta, por questões de morte, herança, as fazendas se
fracionaram. O fazendeiro ficava nas fazendas um mês ou um fim de semana. Os hábitos
de lazer mudaram1 de modo que não importava mais ao fazendeiro mandar comprar
aquele violão, ou consertar aquela sanfona. Assim o que esperávamos ver de
manifestação autóctone, reduziu-se a pequenos espasmos. Encontramos na
maioria das fazendas o dono, morando a maior parte do tempo em Aquidauana,
Miranda, Corumbá, Campo Grande ou no Rio de Janeiro. Em uma ou outra fazenda,
havia o violeiro ou o sanfoneiro, com o instrumento em precárias condições.
Saímos em busca de festas de fazenda, onde houvesse gente, que nos falasse por
exemplo do Pantanal, paraíso Zen, com a rotina sendo o corolário da segurança
e nos decepcionamos. O céu é só para um está do lado de fora. Para quem vive
lá dentro, por parecer um inferno. Foi uma dialética que procuramos destrinçar,
só que com recursos insuficientes, com prazos reduzidos e até com resultados
insatisfatórios, porque na época ninguém se interessou pelo projeto. Descobri
que o tesouro pantaneiro não está em festas de peões, mas guardado na memória
do pantaneiro. O cérebro do pantaneiro é diferente do nosso. Ele não é
afeito à precisão, é meio índio, meio Zen em sua relação com a natureza. E
eu e o Almir, o Zê Gomes, o pessoal da Comitiva Esperança não éramos
exploradores ansiosos, caçadores da arca perdida, loucos para abri-la e
exclamar "olhem só o que achamos, velam o que descobrimos". Nossa
recompensa foi nosso aprendizado. Tomei parte por exemplo em uma cena, que está
registrada no acervo da Comitiva e da qual participaram o Zê Gomes e o Zuza
Homem de meio. Este nos acompanhou envolvido pela magia da Comitiva. Fez a
respeito da viagem um registro emocionante, num especial para a Jovem Pan, que
eu tenho guardado comigo e que, acredito, o povo do nosso Estado não ouviu.
Quero abrir um parêntese, para dizer que o registro de nossa aventura
pantaneira, que oferecemos ao Governo do Estado na forma de um filme, é um
material até hoje desperdiçado, mostrado aleatoriamente aqui e ali, pouco
discuti-do, até por nós mesmos.
Gostaria de
voltar ao assunto música do Pantanal. Ela não existe do jeito romântico que
gostaríamos. O chamamé, que é a versão mais autêntica da música pantaneira,
é cada vez menos executado por pessoas de lá, devido à fragmentação das
fazendas, que passaram a ser propriedade de pessoas de outras regiões, o que
quebra a linearidade cultural. O fazendeiro, que vem de fora, não está
preocupado com o peão sanfoneiro, o que lhe interessa é ter a fazenda em
ordem, bem apresentada para trazer convidados no fim do ano. Para dizer a
verdade, não encontramos a música do Pantanal. A música que existe lá,
diferente da que se ouve em Campo Grande, não é a música que rola no Pantanal
inteiro. Você pode até mencionar o cururu e o siriri, que é um resquício
cultural, À que sobrevive em cidades de densidade populacional suficiente,
para reunir dez cururuzeiros, que dancem o siriri.
A gente tem
uma cena no filme, feita a duras penas, de um registro do cururu-siriri, feita
muito longe de Corumbá, só que o violeiro não toca viola de cocho, porque
naquela região não existia nenhuma. Bem, a conclusão de tantas d~ vagações
é que até hoje não conheço o Pantanal. Depois desse projeto1 participei de
outros, mas o Pantanal contei nua a me impor seus desafios. Com a Divisão,
passou a existir o Pantanal do Norte e o Pantanal do Sul. Eu, como
artista, posso dizer, com convicção, que existem dois pantanais. Já
pessoas envolvidas com outro tipo de atividade social podem contestar minha
afirmação. Professores, cientistas, políticos, discutem para saber qual é o
Pantanal verdadeiro. A Comitiva Esperança foi um esforço meu e do Almir, nesse
sentido, e estamos prontos a discutir com quem queira saber qual é esse
Pantanal. Quanto à música pantaneira, essa eu não vi, a não ser o chamamé.
Minha música
percorre "todos os trilhos da terra", que é o verso final do TREM
DO PANTANAL. Regionalmente, continuo percorrendo todos os caminhos, que se
oferecem a mim. Até citando um autor estranho, Carlos Castanheda, direi
"que só se devem percorrer os caminhos que têm coração" e aqui
em Mato Grosso vejo mil caminhos desse tipo, que eu gosto de percorrer e que até
hoje não foram trilhados por ninguém.
Apesar de
achar que a mídia mundial já perscrutou tudo neste planeta, descubro que
ainda sobra espaço em nossa área Me sinto bem, inaugurando trilhos aqui e
ali, que me podem permitir a esperança numa esquina, encontrar uma visão
diferente da que já foi contemplada em outros centros urbanos.
Até hoje, já
gravei um compacto simples, mas participei de um disco, cuja importância cresce
a cada dia, que passa, que é o PRATA DA CASA, retrato amplo de uma geração de
músicos, de artistas envolvidos com tudo isso, que estou narrando. No mesmo
ano, 1981, participei do Projeto Seriema, voltado para o interior, para essa outra
imensidão brasileira, onde vivem as comunidades rumo raiz, que produzem
alimento para si e para o povo. Participei também do projeto PANTANAL ALERTA
BRASIL, de resistência, de preservação de nosso ecossistema. Resta-me falar
do EXPRESSO ARRASTA PÉ, que consubstancia todas as minhas influências, que vão
dos Stones a Dêlio e Delinha e Mário Zan. Sou um músico rio abaixo, rio
acima, trabalho na minha seara, mas também me posiciono em relação ao
mundo, que é tão vasto, mas está cada vez mais unido pelos tentáculos da
comunicação. Isso me faz lembrar aqueles versos de Fernando Pessoa: "o
rio que passa pela minha aldeia..." que é mais bonito que o Tejo etc.
porque é assim que me sinto em relação a tudo que me circunda. Para mim o
Pantanal, Mato Grosso do Sul são mais importantes, porque é neles que vivo.
Sobre minhas letras, que acham alguns ser o melhor de minha criação,
receberam mil influências. Li e ouvi muito, poetas modernos, como John Lennon,
Bob Dylan, Mick Jagger, Keith Richards. NOCHES DE YPACARAÍ é uma letra que me
acompanha desde criança, bem como SAUDADE, de Mário Palmério, as composições
de Mário Zan, as de Nhô Pai e Nhõ Fio. Quero deixar aqui o nome de dois
poetas que me influenciaram muito: Renato Teixeira e Geraldo Roca. Sou produto
do que absorvi através dos anos, de artistas internacionais e brasileiros.
Em minha carreira de músico, ao contrário
do que acontece habitualmente, cresci através de uma motivação marginal,
alternativa talvez. Ela nunca estourou em parada de sucesso, nunca foi
impingida, mas vai resistindo ao tempo, sendo cantada por diferentes gerações.
Orgulho-me de ter sido chamado pelos responsáveis do PRATA DA CASA para
interpretar SONHOS GUARANIS, que eu e o Almir Sater consideramos nossa obra
prima, difícil de ser superada. Naquele flash de uma geração brilhante, que
foi o PRATA DA CASA, cantar para uma platéia cheia, ansiosa para nos ouvir,
constitui um dos orgulhos de minha vida.
Sou
um profissional da música, mas não sou um compositor alienado, estou atento a
todos os problemas do meu tempo. Vivo da música, na música, pela música.
Gostaria até de servir de exemplo, para outros, que podem fazer isso melhor do
que eu, mas que por falta de estímulo, de um empurrão, vão-se acomodando.
Deixei um emprego público, para ter mais liberdade de criar. Quero deixar aqui
registrado que fiz muito mais bem aos mato-grossenses como compositor, do que
como funcionário público em meus quatro anos como assessor de comunicação
da fundação de Cultura de MS, apesar de todo o esforço que despendi porlá.
A PENA surgiu como derivativo das
muitas oportunidades, que vivi, nas andanças pelo exterior, onde observei que
muita coisa podia ser adaptada aqui. Da Bolívia eu trouxe a idéia desse intercâmbio
da música latino-americana com a nossa. Quem primeiro me alertou para isso
foi Carlos Medeiros, quando na Bolívia me convidou para ir, do Ernesto Cavour,
que eu já tinha ouvido e aplaudido no Rádio Clube, em Campo Grande. Para os
que terem esse depoimento, esclareço que a PENA é um costume andino. As
pessoas interrompiam suas viagens à noite (porque é perigoso errar à noite
nos Andes> e abrigavam-se perto de uma rocha grande, que em castelhano se
denomina PENA e cantavam, tocavam, aconchegavam-se para agüentar o frio. Esse
costume, ou essa necessidade, foi-se espalhando pelas cidades da Bolívia e do
Peru e hoje tomou conta da América do Sul. É uma forma mais de convivência,
que de expressão artística, embora essa última não deva ser menosprezada. O
importante é o aconchego, o compartilhamento.
Já estive envolvido na proposta de implantação de uma rádio. No momento, estou motivado por um projeto, que tem como objetivo a criança, pois esse futuro tão tenebroso, como é descrito na mídia, repousa nas mãos de nossos filhos, na segunda e na terceira geração. Inspire-me no fato de que existem pais e existem filhos. Não estou a fim de determinar, nem definir nada, nem me sentirei frustrado, se as coisas não saírem, como foram previstas. Trabalho na área a que me acho afeito. No momento, julgo que Mato Grosso do Sul está quase quebrando a casca do ovo. Se ei' for um dos bicos que irão ajudar a quebrar essa casca, me sentirei feliz. Não é preciso que eu seja o primeiro.
GRUPO
ACABA
platéia é tomada por um frisson" de admiração a primeira vez que eles surgem, quebrando códigos estéticos estabelecidos, com a forte presença cênica, em que roupas, gritos, instmmentos exóticos, instalam clima de retorno aos mitos da terra.
No
112 Festival de Música Estudantil, realizado em Campo Grande, em 1970,
envolveram de imediato o público com a canção NA MINHA CANOA só CABE
LUCINDA. Até hoje é impossível esquecer o entusiasmo das pessoas, cantando
com o grupo, reclamando, por diversas vezes sua volta ao palco.
Há
25 anos, firmaram consigo mesmos e com a terra sul-mato-grossense compromisso de
lutar com as armas da poesia e da música pela defesa da cultura em um Estado,
onde produtos materiais têm mais valor que os do pensamento e da emoção.
Da
vivência no Pantanal, de onde se originam seus dois líderes Chico e Moacir,
brotou uma produção, que mergulha fundo no sentimento humano. O herói, tanto
pode ser o índio, como o vaqueiro, na luta contra as enchentes, a morte dos
animais. Um cenário de beleza, incapaz de ser captado em sua luminosidade
pelas lentes das mais modernas cámeras, serve a eles de inspiração. Tudo no
ACABA é artesiana, desde as roupas, desenhadas e costuradas por eles mesmos, até
os instrumentos plástico-sonoros, com os quais recriam os sons elementares da
natureza. Mesclando objetos, fabricados com material primitivo, a
instrumentos, como o clarinete, o pistão, o violão, rompem fronteiras entre a
cidade e o sertão, enquanto propõem uma síntese entre o progresso e o mundo
em gestação1 que habita no fundo dos rios e das florestas.
Dentro
de um processo de criação, no qual o resultado é a surpresa, estão em
permanente estado de pesquisa, caminhando por entre as tradições indígenas,
numa expedição única em que cada material recolhido irá depois fazer parte
do painel de registro das contradições de Mato Grosso do Sul. Atualmente, eles
são sete, Chico, Moacír (Dudu, Luís Porfirio, Zezinho, Vandir, Jairo e Odon.
Sete artistas, para os quais a infância revive a cada momento nas letras das músicas,
nas imitações das vozes dos animais, nas brincadeiras, que improvisam no
palco.
Louvados
por críticos da nossa MPB, como Ri-4 Ricardo
Cravo Albin, por experts da música, como Guio de Moraes, gravaram discos,
ganharam prêmios, apresentaram-se com sucesso às platéias exigentes das
grandes capitais brasileiras, sempre fiéis à proposta inicial de preservação
das raízes e de defesa do meio, em que se acham inseridos.
Após
assistir, em 1981, às apresentações do Proleto "Prata da Casa", que
reuniu durante duas noites no Teatro Glauce Rocha os nomes mais expressivos da música
popular de Mato Grosso do Sul, assim se expressou Roberto Moura, numa crônica
publicada no jornal O PASQUIM: '1Do que vi e ouvi, o trabalho mais original,
cria a sede (mentado
culturalmente foi apresentado pelo Grupo ACABA. Integrado por profissionais
liberais, são seis músicos voltados para as raízes culturais do Pantanal,
para a flora riquíssima do lugar, além dos hábitos de quem vive lá".
Este trecho, de onze anos atrás, ainda reflete os ideais, o jeito de ser do
grupo. A falta de incentivos financeiros não estanca a criatividade dos
elementos do ACABA, que continuam dizendo presente a todos os chamados
culturais, onde possam divulgar o próprio talento e as riquezas do Estado. Para
isso, viajam de ônibus comercial, andam a pé ou a cavalo, se preciso for, no
desselo de integrar a música com a vida, num trabalho em que a pesquisa é
fundamental. Sua obra reclama estudo, divulgação, principalmente nas escolas,
pois ela é um dos simulacros mais autênticos do Estado. Neste ano, lá
estiveram eles no festival EC0192, promovido pela Fundação de Cultura do
Estado, proclamando que mais do que nunca precisamos defender nossa
primitividade, preservar a natureza Como há 25 anos atrás, arrebataram corações
com uma coreografia em que os sons da mata, o ritmo das águas, o canto dos pássaros
invadia a platéia, para ensiná-la a ser feliz, através do canto.
GRUPO
ACABA
Moacir
- Fazemos parte de uma família de miúde artistas, de contadores de histórias.
Por isso, as de minhas composições mergulham no universo multi familiar,
onde as figuras de meu pai, Francisco Saturde Lacerda, e de minha avó, Dona
Generosa, destacam-se. Neste momento, me lembro dela, gorda e cega, com suas
histórias repletas de detalhes, covilo a suprir o que a falta de visão lhe
negava. De sua ~ saiam narrativas repletas de sons e cores, que me transportava
ao tempo da colonização de Mato Grosso. De meu pai, que era músico e que,
pelos idos de 1930, Iazz com o professor João Correa Ribeiro, herdei o ~ de
brincar com os sons, obtendo os mais surpreendes efeitos. Ele era também um
grande contador de ", embora vivesse mais preocupado com seu do que com o
ofício de divertir os filhos.
- Nosso irmão
mais velho, tocava cavaquinho. Meu avô, Pachico, sabia dar ritmo aos mais
inesperados acontecimentos. Lembro-me, por exempIo, dos gafanhotos, que
invadiam sua pequena roça, a ponto de escurecer o sol. Ele então reunia a
vizinhança, a gurizada, e fazia aquela pequena multidão bater latas, até que
as pragas fossem embora. O barulho das latas, misturado ao zumbido dos
insetos, gerava uma música forte, que se instalou em nosso peito, como uma
orquestra poderosa, tocando no fundo do subconsciente. Por isso, o Grupo ACABA
é incapaz de manter-se silencioso. precisamos bater latas, tambores, fazer escândalo
no palco, o que assusta as pessoas de boa formação musical. Sou o letrista do
grupo. Parece mentira, mas já completei cinqüenta anos, a maioria deles de
muita peleja a favor da arte. De meu pai, das influências recebidas, nunca é
demais falar. Era um homem simples do interior, que sustentou nove filhos com
o produto da pesca, na região de Albuquerque, Corumbá e Porto Esperança,
quase no coração do Pantanal. Minha mãe, Honorina Vieira de Lacerda, nos seus
rijos 82 anos, tem muito mais saúde que qualquer um de nós. Meus pais tiveram
14 filhos, dos quais se criaram apenas nove, os demais foram levados pelo
sarampo ou pela catapora Os primeiros anos de nossa infância foram vividos no
contato com a natureza, cujos rumores estão presentes na maioria de nossas
composições. No convite de lançamento de nosso primeiro disco há um trecho
do Luca Marimbondo, no qual ele afirma que a música do ACABA "é como
cachaça da boa, primeiro arranha a garganta, depois desce como mão boba em
perna de moça bonita Primeiro o som do ACABA arranha os ouvidos, depois a
gente vai ouvindo, ouvindo... e gostando". Isso porque nossa música tem
as contradições da natureza, é preciso ter sentido os sons dos capões, dos
rios, o calor do sol para vive-la em todas as suas dimensões.
As
palavras carandá, caraguatá, camalote, guavira, tarumá, brotam
espontaneamente em meus versos, como vivência da infância, que está presente
até hoje dentro de mim.
Moacir
- Gostaria de retomar o fio da meada e falar um pouco mais da figura extraordinária
de minha avó, que aos 95 anos, ainda sabia de cor as cantigas, que sua avó lhe
ensinara na infância e que ela passava aos netos. Com 15 anos, veio de navio do
Nordeste para Mato Gros50, através da bacia do Prata, fugindo da seca de
1877. Ela costumava nos contar que, naquele tempo, o Governo do Estado oferecia
terras, hospedagem e alimentação aos retirantes, que quisessem povoar Mato
Grosso. Dessa forma, veio parar em Cuiabá e depois no Alto Pantanal. Suas histórias
sobre seringueiros explorados, cearenses tangidos pela fome, calaram tão fundo
em minha alma, que se refletem na maioria de minhas composições, onde é visível
a influência nordestina.
Até
1968, eu nunca havia pensado em fazer música ou letra. Quem escrevia poemas
era o Chico. Foi então que aconteceu em 1970, no Clube Surian, de Campo
Grande, o ll Festival da Música Popular Brasileira de Campo Grande, em que a
composição vencedora foi O AMOR VENCE A COR, de Lenilde Ramos, interpretada
por José de Almeida e Darcy Terra. Foi nessa época que o Chico começou.
Formamos um grupo animado a produzir música, talvez levados pelo impulso do
Festival. Não era ainda o Grupo ACABA. O Chico fez as letras de suas composições,
com as quais concorremos: A EVOLUÇÃO 1114 ERA ASSIM e O ESPANTALHO. A temática
do ACABA já se evidenciava nas duas criações. Em O ESPANTALHO1 ressoava forte
o barulho das latas no meio da roça, para espantar os gafanhotos. Em A EVOLUÇÃO
ERA ASSIM, desponta nosso lado mítico:
Nessa hora tão bonita
A
roseira/á deu flor
Vou
voltar para a escola
Afinar
minha viola
Depois
volto professor
Chico
- Meu nome completo é Francisco Saturnino Lacerda. Nasci em Porto Esperança,
em 1944. Como a pesca não dava dinheiro, os homens buscavam sobreviver como
estivadores. Meu pai fazia parte de uma banda de músicos de cabaré, mas teve
tantos insucessos pela vida afora, que não quis mais viver na cidade, atrás do
balcão de um bolicho. Preferiu ser pescador, para ficar mais livre, em contato
com a natureza. Além de músico, ele era sargento do Exército, mas largou a
farda e se mandou pra Porto Esperança. Ali chegavam mercadorias de Cuiabá,
por via fluvial, porque a estrada de ferro só ia até Porto Esperança O
pessoal da época denominava um dos navios de Fernando Vieira, e eu, pensando
nos tempos difíceis das baldeações, fiz uma música com o nome de FERNANDO
Vieira. Depois de várias leituras? descobri que estava usando um nome errado,
que não corrigi, para ser fiei às minhas lembranças. Afinal, em arte, o que
importa é a verdade do artista. Em Albuquerque, os campos ficam alagados na
época da cheia. Quando a gente vai de Albuquerque a Porto Esperança e vê toda
aquela imensidão de água, absorve para sempre a paisagem.
Grande
parte de minha vida decorreu nos bananais do rio Paraguai. Quando menino, vi
passar muito açúcar, muita farinha de mandioca. O movimento dos estivadores,
correndo da prancha para o navio, cantando, gritando, foi o ponto de partida
de meu gosto pela arte dramática, feita de ação, cores, movimento. Meu pai
era tão ligado à natureza, que fabricava seus instrumentos de pesca com o
material que colhia no mato perto de nossa casa Com as molas da cama, fazia um
anzol, que o povo denominava cabeça-de-peixe.
As
recordações do passado são a matéria prima de minhas com posições, como
esta:
Meu
sarampo foi curado na tolha do sabugueiro
Meu sarampo foi curado na
folha da bananeira.
Depois
de ter visto nossa apresentação no 1119 FESTART (Festival de Arte) promovido
pela Secretaria de Cultura e Esportes da Prefeitura Municipal de Campo Grande (SEMCE),
o empresário Zambrone, dono do bar Dólar Furado, convidou-nos para cantar ali.
A princípio, achamos o convite uma audácia, que nos rebaixaria de nossa condição
de músicos e pesquisadores e nos indagávamos: O que leva o homem a tocar num
bar, na noite? Acaba caindo no alcoolismo, como vimos acontecer com muitos
amigos, que têm sempre um violão no braço e um copo de uísque no outro. Com
medo da desvalorização, da decadência, relutamos, mas no fim assinamos o
contrato e obtivemos o maior sucesso nas quatro noites em que nos apresentamos
por lá. Fomos muito bem pagos e o empresário teve o merecido retorno, por
que conseguimos colocar cerca de oitocentos a mil pessoas no recinto, nas
quatro noites em que tocamos no Dólar Furado. Quando o dono nos pediu para
continuar, eu lhe disse que iríamos parar por um tempo, voltando alguns meses
depois. Após a aventura do bar, temos feito apresentações esporádicas, em
congressos, aniversários de cidade, encontros... Sempre que solicitado, lá
está o ACABA com sua música, sua encenação.
Quando
me perguntam sobre a música de Mato Grosso do Sul, eu respondo que a história
de nosso povo não pode ser analisada por um fato isolado. Então a música de
Mato Grosso do Sul precisa estar sempre relacionada com a dos outros estados do
Brasil. A soma constitui um dos nossos mais preciosos tesouros, que é a MPB.
Notamos, no entanto, que existe uma expressão específica do Estado,
principalmente a que fala do Pantanal e que sempre causa impacto, quando é
mostrada lá fora Desde cedo, o Grupo ACABA mantém os olhos atentos à beleza
da fauna e da ~1lora pantaneira, mesmo antes da questão ecológica estar no
centro de todos os debates.
A
questão indígena, que faz parte da preocupação mundial, já existia no
cerne de nossas composições. Todo esse trabalho unido às manifestações
folclóricas, como a catira, o sinri, o cururu, constitui o que chamarei
cultura mato-grossense, porque nossas raízes estão fincadas no antigo Estado1
e onde nunca nos separamos culturalmente. Continuamos mato-grossenses do Sul e
do Norte. E claro que temos nosso modo próprio de expressão, que nossa música
tem seus traços distintivos, que permitem que não a confundamos com nenhuma outra.
O
que nos falta é pesquisar, divulgar essa cultura, para que o povo tome
conhecimento e dela se orgulhe. Muitas vezes, influenciados por um vanerão,
deixamos de prestar atenção a esta música, com gosto de fruta, queimada de
sol, com cheiro de raiz que é a música feita em Mato Grosso do Sul, de que o
ACABA é o legitimo representante.
(bom
seria se a nossa música, de que o Grupo ACABA pudesse parecer a nível
nacional. Eu costumava dizer que, nas prateleiras das lojas culturais e musicais
do Brasil, havia um lugar vazio, para ser preenchido pela música mato-
grosensse, pela música pantaneira. infelizmente, até hoje a prateleira
continua vazia. Falta nela um pedaço do Brasil. Cabe a nós lutar, sem medo,
para que isso um dia aconteça, Vai chegar o tempo, em que a música
pantaneira vai acontecer na mídia nacional. Mato Grosso do Sul é o grande
produtor de boi, de grão, mas em que isso contribui para mudar o perfil
cultural do Estado, visto na mídia como um corredor de tráfico de drogas? O
que temos de mais autêntico, de mais sadio, é o nosso potencial artístico,
seja na poesia, no teatro, na dança, em que fomos capazes de sensibilizar a
figura do Papa, quando visitou Campo Grande.
Acho
que algum movimento cultural pode acontecer agora com a EC0192, com 500 anos
da América.
Atualmente, a música
passa por um período de grande dificuldade, não recebendo ajuda de ninguém. O
poder público, de cujo auxílio a arte não pode fugir, está mais ausente do
que nunca ( novo surgindo por aí, ninguém de 17, 20 anos aparecendo, como
promessa para o futuro. Continuam pontificando os quarentões e cinqüentões de
antigamente. Eu não sei o que pode acontecer no futuro, se não despontarem
novos valores. Ao mesmo tempo, tenho medo de que nossa música possa ser
mascarada pela de outro estado. Fico pensando no que o Moacir disse do vanerão...
O gaúcho tem uma força tão grande que foi capaz de expulsar a polca
paraguaia, o rasqueado de nosso Estado. Só ainda não matou a música
mato-grossense, porque existe uma grande força de resistência da parte dos
velhos compositores.
Somos
contra a participação de músicos em comícios de candidatos em cuja ideologia
não acreditam. -Infelizmente, alguns são obrigados a isso para sobreviver.
Culturalmente1é
uma atividade que não leva a lugar algum .Estamos abertos a qualquer tipo de
renovação.
Por
exemplo, a música REBENTO DE UM Príncipe, com a qual fomos premiados no Rio
Grande do Sul, aborda o nascimento de um guaicuru, misturando música sacra e música
indígena. Além dos gestos e dos gritos, da criação de instrumentos, que são
cabaças, pedaços de pau, de ossos, de ferro, aos quais já me referi, criamos
nossas roupas, nossos enfeites, somos um grupo excessivamente teatral. Nosso
corpo irrompe em movimentos, que remetem à rudeza dos animais, agitando o braço,
levantando o pé, para uma comunicação direta com o público. Nas encenações
do ACABA, está impressa um pouco de minha vida profissional. Como publicitário,
exper. em marketing, sempre me preocupei em criar para o ACABA um visual, que o
diferenciasse dos demais grupos. Nossas roupas são desenhadas e costuradas por
mim, da forma mais simples possível. A falta de grana talvez estimule a
criatividade. Adotamos roupas simples, de algodão cm, que obedecem à nossa
proposta. São roupas folgadas, que nascem da necessidade que tem o pantaneiro,
de movimentar-se, facilitando para isso os movimentos dos braços e das pernas.
Quando eu era menino, minha avó costumava vestir os netos com camisolões de
algodão, feitos de sacos de açúcar. Talvez venha dai' meu gosto pelas roupas
folgadas de nossas apresentações. Um signo característico do ACABA é o uso
do branco. Na verdade só temos dois trajes, um branco e um preto, tanto que,
uma vez, em Três Lagoas, uma senhora, que nos havia visto no SOM BRASIL
perguntou-nos:
-
Vocês estão usando aquele mesmo roupão branco do programa de televisão?
Gostamos
do branco, porque ele enche nossa vida de alegria, de luz. Só usamos o traje
preto uma única vez. Essa história de cor, está ligada ao lado espiritual, à
energia, que une nossos sete elementos em torno de uma proposta, que comunicamos
ao público. Faz parte de nos50 lado espiritual. Existe uma força, que nos
leva para frente e para o alto, que nos mantém unidos, sem preocupação com
dinheiro ou outros problemas, a que estão sujeitos os artistas.
Há
vinte e cinco anos, fazemos uma oração, antes de pisarmos o palco, esteja o
teatro repleto ou vazio. Todos nós somos ajudados pela religião, é ela que
nos permite continuar empunhando essa bandeira de esperança no futuro de Mato
Grosso do Sul. Por isso sabemos que o próximo disco virá para dar satisfação
espiritual a cada um de nós. Nele figura uma composição muito linda,
denominada AS MONÇO ES, em que é retratada a descoberta de nossa terra pelo
homem branco. Tem ainda uma de cunho religioso, cheia de lirismo1 O RANCHO DO
JAU, que é uma marcha rancho à moda do Pantanal, onde abordamos os perigos,
que cercam os garimpeiros na sua luta em busco do ouro, e O REBENTO DE UM Príncipe
de que já falei atrás.
Estão
no Grupo ACABA há mais de vinte anos:
Moacir
(Dudu), Chico, Luís Porfirio (Luisinho), Vandir. Pertencem ao grupo há mais
de treze anos: Zezinho (José Charbel Filho>,que deu maior comunicação a
nosso grupo com seu estilo caribenho e Jairo, exímio no violão. Faz parte do
grupo há menos de treze anos, o pernambucano Adriano Praça de Almeida, que
talvez por ter convivido com a riqueza de sons do Nordeste1 tenha acrescentado
uma tonalidade nova às composições do ACABA. Somos talvez o único conjunto
regional com um instrumento de jazz, tocado pelo Adriano.
O
Odon Nacasato,do Studio Vozes, éo elemento mais novo do grupo. Alguns
elementos passaram pelo ACABA e se foram como nosso irmão Wilson, o Alaor Pereira,
que não sei por onde anda.
Teve
ainda uma passagem rápida pelo ACABA o Celso Gomes, falecido há quatro anos. A
última aventura do ACABA foi sua participação no Festival Ecológico, que a
Fundação de Cultura do Estado promoveu com vistas àEC0192, da qual
participaram os vencedores. Como defensores da fauna e da flora pantaneira, não
podíamos deixar de subir ao palco, para gritar que estão matando nos-509
animais, destruindo nossa vegetação e com isso acabando com nossa própria
vida.
Com
a música O RANCHO DO JAÚ passamos nossa energia ao público.
Se
você tem fé, acenda a vela pra São Gonçalo, Pedro, Antônio e São João
Vamos levantar esta bandeira que a fauna e e flora permanecem em extinção
O
brilho do garimpo mata o rio, que mata o peixe, envenenando o meu pirão Canta
siriri-cururueirol
Vem
carteiro entoar nossa canção!
Essa
é a história do ACABA, que batalha palha melhorar o nível de vida do nosso
povo.
CULINÁRIA
A CULTURA ESPONTANEA
E OBSERVSDA por todos nós e constitui parte
integrante de vários momentos de nossas vidas . através das crenças
canções costumes
e culinária etc... toda essa herança cultural
deve-se a contribuição dos povos de
diversos continentes ao, povo
campo-grandense ,num processo de aculturação permanente . Assim podemos
destacar a aculturação européia
através dos :
CONTINENTE
EUROPEU
PORTUGUESES
: de seu mar os portugueses trouxeram bacalhaus e sardinhas em molhos quentes e
assada em brasas. Dos campos chouriços e presuntos defumados . Tudo acompanhado
de azeitonas e de vinhos , razões de orgulho regional .
São
servidos vinho do porto e vinho verde que
na cor e branco ou tinto. Os dois
vem da mesma variedade de uva o que determina a diferença e o boquet.
ESPANHOIS
: os espanhóis trouxeram para Campo Grande
os mais variados pratos como gaspaccio , comida fria da andaluzia ,
puchero com alguma semelhança com a nossa feijoada , mas e a base de grão de
bico e a famosa paelha, alem dos chouriços coloridos com pimentão e
recendendo a orégano . Em seu preparo a comida Espanhola
trás com outros aspectos de cultura
a marca de diferenças regionais .
ITÁLIA
: A macarronada
como não poderia deixar de ser foi o maior marco de popularização da
comida italiana em campo grande. No entanto os saborosos molhos a bolonhesa,
Genovesa , Napolitano e
Puttanesca, além das deliciosas pizzas, margarida calabresa e musarella , tudo
isto acompanhado por um bom vinho italiano e um fenomenal sorvete .
CONTINENTE ASIÁTICO
Sírios
Libaneses :
Em Campo Grande a vivência de hábitos próprios e intensa destes povos
, a comida árabe , considerada mais completa alimentação a base de grãos ,
castanhas e carnes ela e temperada com óleos e ervas requintadas porque aroma são
fundamentais para esses orientais
. Como o aromático e o arak , transparente alcóolico de anis que
se torna branco mistura ao gelo e a água. Perfuma a boca e ajuda na digestão
.
JAPONESES
: Para os japoneses arroz legumes e carnes são instrumento de arte, que devem
ser expressados em detalhes mínimos no jeito de se segurar os alimentos , na
precisão dos cortes , no equilíbrio exato do sabor , e na apresentação dos
pratos . Em Campo Grande eles
popularizarão o sachimi yaksobas 9( soba).
CONTINENTE AMERICANO
USA:
Em Campo Grande é notória a presença de carrinhos vendendo cachorro quente e
hambúrgueres uma tradição que veio dos EUA.
BOLIVIA:
Os pratos bolivianos trazem o gosto forte dos frutos e raízes que para
conservar por muitos anos os índios desidratam interrando-os em valas cavadas
no chão frio . Conhecemos a xixa refresco de milho acrescido de pêssego passas
e temperado com cravo e canela. O milho é produto básico da alimentação
boliviana , que em campo grande é
usado para curau pamonha, etc.
PARAGUAI:
Mato grosso em suas próprias terras sonho guarani ; se não fosse a
guerra quem sabe hoje era um outro país .
As
comida típicas de origem guarani exercem grande influência sobre a cultura Sul
Mato Grossense Outra grande influência da colônia paraguaia sobre a cultura
sul-mato-grossense é a questão da \&mentaçno4 hoje , é muito difícil
encontrar alguém que não tenha incorporado a chipa nos seus hábitos
alimentares, "Chipa", Como e conhecida em seu país, é uma espécie
de pãozinho de queijo diferente do pão mineiro). Faz parte da alimentação diária
do sul-mato- grossense, no café da manhã ou lanche da tarde e pode ser
encontrada em padarias, bares, lanchonetes.
Também
a "sopa paraguaia" faz parte do cardápio sul-mato-grossense,
principalmente às sextas-feiras santas, sendo rico alimento em proteínas e
gordura. De sopa, somente o nome, pois trata-se de uma torta de fubá
(semelhante à polenta), preparada com ovos, leite, azeite e que. São vendidas
aos pedaços em bares, lanchonetes e como aperitivo regional em diversas casas
noturnas.
"Caburé"
- é o nome dado ao bolo de mandioca e assado no espeto, com recheio de queijo,
"Bori-Bori" - são bolinhos cozidos em caldo de galinha ou outros, em
forma de bolinhas.
"Locro"
- é um prato forte e próprio, principalmente, para os dias frios. É um cozido
de milho canjica socado, osso de tutano e legumes variados.
RODAS
DE TERERÉ
Não
se pode deixar de citar o hábito de se-tomar tereré (erva-mate com água
fria), por grande parte da população sul-mato-grossense. Rodando pela
periferia de Campo Grande, longe da azáfama do centro que corrói o tempo do
cidadão, é possível defrontar-se, com grupos de pessoas sentadas debaixo de
um abacateiro ou mangueira, com a cuia de tereré em uma amimada conversa.
INDÍGENAS:
Os
índios fazem parte da história de campo grande sendo considerados os
introdutores da mandioca , guariroba , etc... Na alimentação campo grandensse
CONTINENTE AFRICANO:
Os
africanos trouxeram para campo
grande como marco principal de sua cultura a feijoada , que é por nós
adquirida como cultura própria sendo
obrigatória a muitos uma
boa feijoada todos os sábados.
Do
encontro e trocas entre todas essas
culturas , resultou a cultura espontânea campo grandensse.
Obviamente
, a migração interna deve ser vista como fator importante de contribuição
para o processo de aculturação .
Consequentemente
e possível observar uma cultura meio popular uma vez que os diversos povos
fazem parte de uma só realidade social.
A
culinária campo-grandensse carrega em sua formação uma mistura de ingredientes provenientes das mais variadas regiões
do planeta.
CAMPO GRANDE-MS DATAS DO MATO GROSSO DOS SUL CIDADES HISTÓRICAS
DIVISÃO DO ESTADO A MÚSICA DE CAMPO GRANDE
NAÇÕES INDÍGENAS DO MATO GROSSO DO SUL