TEMPLOS DE
JERUSALEM
Existiram três(3) templos de
Jerusalém, todos edificados no mesmo local, no MONTE MORIÁ, no setor oriental de Jerusalém, hoje ocupado em
grande parte pela mesquita de OMAR,
segundo a tradição, seria o local
onde ABRÃO
foi sacrificar seu filho ISAAC,
como prova de submissão a Deus.
Era um Templo portátil dos israelitas, construído no deserto para o período de vida nômade, e que ficou em uso até a construção do templo planejado por DAVID, e edificado por SALOMÂO.
A construção do Tabernáculo aos pés do Monte Sinai ocorreu no ano de 1490 a.C. um (1) ano após MOISÈS ter recebido os dez mandamentos.
A palavra Tabernáculo, que é de origem latina, significa propriamente tenda ou barraca. O Tabernáculo deveria ficar armado dentro de uma área retangular, de aproximadamente 25m por 50m conhecida como PATIO do tabernáculo. Na parte Oriental ficava o povo, no Centro estava o altar das oferendas e dos sacrifícios (Êxodo-27) e na parte Ocidental ficava a tenda do Tabernáculo (Êxodo-26).
O Tabernáculo propriamente dito se dividia em duas salas. A maior era um retângulo de aproximadamente 5m por 10m, ficando ao lado da entrada. A menor era um quadrado de aproximadamente 5m por 5m . Eram separados por uma finíssima cortina de linho, com anjos e querubins bordados em cores. Era chamada MISHKAN, isto é; “habitação” em hebreu, e recomendava a ordem de DEUS a Moisés, “façam um santuário onde EU possa habitar entre eles”, (eles me farão um santuário, e eu habitarei no meio deles, Êxodo-25).
O MISHKAN dividia as duas
seções. A primeira se chamava de lugar
SANTO ou SANCTUM, e a segunda era o SANTO
DOS SANTOS ou SANCTA SANCORUM .
O recinto maior SANTO ou SANCTUM, tinha a mesa para os pães da proposição ou presença de DEUS , ficava ao norte e a direita de quem estivesse de frente e de costas para a entrada. Pães estes oferecidos a cada sábado a Deus, e que só os sacerdotes podiam come-los. Era, doze e de forma achatada, constituíam a proposta que o povo fazia ao Senhor de em troca da oferta, obter as suas bênçãos. O candelabro de sete braços ficava ao sul, do lado oposto ao da mesa da proposição, portanto à esquerda de quem entrasse. E o altar do incenso (Êxodo-30) bem ao centro e próximo do MISHKAN .
O recinto menor , SANTO DOS SANTOS ou SANCTA SANCTORUM, era considerado o lugar mais sagrado do mundo,l porque era habitação terrena do próprio DEUS. Nele estava colocada a ARCA DA ALIANÇA (Êxodo-25:10) (Hebreus-9:4). Somente o sumo sacerdote e apenas uma vez por ano, no dia da expiação, ou humilhação (Hebreus-9:6), que é 10 de outubro, entrava no SANTO DOS SANTOS a fim de fazer expiação pelos pecados do povo. Esta forma e disposição foram conservadas no templo de Jerusalém.
PRIMEIRO TEMPLO OU DE SALOMÃO
Quatrocentos e oitenta anos (480) depois que o povo de Israel havia saído do Egito, no quarto ano do reinado de SALOMÂO em Israel, no mês de fevereiro, SALOMÂO começou a construir o Templo (1Reis 6). No décimo primeiro ano de seu reinado, no mês de agosto terminou completamente o Templo, levando por tanto sete anos (07) para construí-lo. SALOMÂO também construiu o seu palácio e levou treze anos (13) para termina-lo. SALOMÂO reinou em Israel por 40 anos, 07 anos da cidade de Hebrom e 33 de Jerusalém.
O primeiro Templo, construído por Salomão entre 967 e 964 aC, serviu como centro de culto de DEUS em Israel por quase 400 anos, até sua destruição em 586 aC, por NABUCONDONOSSOR, na tomada de Jerusalém. A destruição do Templo se deu por que Salomão, desobedeceu ao Senhor, pois ele havia ordenado que os israelitas, não se casassem com mulheres estrangeiras, pois elas fariam com que seus corações se voltassem para outros deuses. SALOMÃO além da filha do rei do Egito, casou-se com mulheres hetéias e com mulheres dos paises de Moabe, Edom, Amom e Sidom, num total de 700 esposas e 300 concubinas. Construiu na montanha a leste de Jerusalém , lugares para adoração de; Quemos deus de Moabe, Moloque deus de Amom. Também construiu lugares de adoração, onde suas esposas estrangeiras, queimavam incenso e ofereciam sacrifícios aos seus próprios deuses. O SENHOR, DEUS de Israel, havia aparecido duas vezes para Salomão e ordenado que não odorasse deuses estrangeiros. Mas em consideração a DAVI, o Senhor permitiu a destruição do Templo, somente a pós a morte de Salomão., no reinado de seu filho ROBOÃO.(1Reis 11)
No dia 10 de outubro trincheiras foram cavadas em volta da cidade, que ficou sitiada por dois anos. No dia 9 de abril o rei SEDECIAS fugiu, mais foi perseguido e preso pelos Caldeus e conduzido ao rei da Babilônia em Rebla (Síria), onde foi julgado, e tendo seus olhos vazados, foi acorrentado e conduzido da Babilônia, antes porém assistiu a chacina de seus filhos.
Toda a população de Jerusalém, todos dignatários e homens abastados num total de 10.000 foram deportados para Babilônia, ainda os ferreiros e serralheiros de modo que, só ficasse a população pobre do país.
NABUCONDONOSSOR em 7 de maio ordenou que o comandante de sua guarda e oficial NABUZARDÃ, ateasse fogo no Templo do senhor, no palácio real e em todas as casas de Jerusalém, além de demolir as muralhas de Jerusalém em toda sua extensão. (o Menorá iluminou este tempo por 400 anos)

Entre os 10.000 Israelitas levados cativos a Babilônia, estava o rei JACONIAS. O filho de Jaconias, ZOROBABEL, após 70 anos de escravidão e da morte de Nabucondonossor, obteve de CIRO seu sucessor, a autorização de voltar a Jerusalém, em 536 a.C., e levantar as ruínas do Templo. Mais as obras só começaram por volta de 520 a.C. . Este atraso se deu devido ao fato que; os Israelitas eram constantemente hostilizados pelos samaritanos, seus vizinhos, que tinham construído um Templo, e dominados pela inveja, se opunham à reedificação do Templo de Jerusalém . A obra só continuou após, ZOROBABEL obter do rei DARIO, sucessor de CIRO, a expedição de decreto no qual punia com a morte os vassalos, que perturbassem os obreiros nos trabalhos de reconstrução da cidade de Jerusalém e do Templo.
Esse segundo templo ou de ZOROBABEL, ao que parece foi construído no mesmo lugar que o Templo de Salomão, só que menos imponentes. Neste segundo templo, o “Santo dos Santos” foi deixado vazio, pois na destruição de Jerusalém em 586 a.C., a Arca da Aliança desapareceu. Diz a lenda que a ”Arca da Aliança” fora conduzido aos céus.
No “Santo” a disposição interna era a mesma, com tudo só havia um candelabro(Menorá) e só uma mesa para os pães da proposição.
Este segundo Templo foi saqueado por ANTIOCO IV no ano de 168 a.C. . Três anos mais tarde, 165 a.C., Jerusalém e foi retomada por JUDAS MACABEU, que restaurou o Templo e restabeleceu o culto.
Nesta época surge o candelabro de Nove (9) braços, destacando-se o nono, central, que sobressai dos restantes oito, que são colocados na mesma linha horizontal, é o HANUKAH que significa restauração, comemorando a vitória dos Macabeus. (o Menorá iluminou por 420 anos este segundo templo).
TERCEIRO
TEMPLO OU DE HERODES
Um terceiro templo foi construído por HERODES MAGNO, que o fez com magnificência, para captar a simpatia dos judeus e para satisfazer as ambições de sua mania de construções grandiosas.
O Templo tinha as mesmas disposições do tabernáculo só que em escala maior, sendo as dimensões internas o dobro das do tabernáculo, ou seja 10 m por 30 m e se dividia como no tabernáculo em duas salas.
A mais retirada era o “Santo dos Santos – Sancta Sanctorum” um quadrado com aproximadamente 10 m por 10 m, nela ficava a Arca da Aliança. A outra sala era maior, aproximadamente 10 m por 20 m, e estava separada do “Santo dos Santos” por uma divisão de cedro, com uma porta de oliveira no centro, além do véu. Nesta sala, chamada “Santo ou Sanctorum” estavam como no tabernáculo as mesmas peças, só que em maior escala. O altar do incenso feito de cedro revestido de ouro e dez (10) mesas invés de uma, cinco de cada lado; e 10 candelabros de ouro, em vês de um, também cinco de cada lado.
A restauração começou no ano de 20 a.C. . O santuário ficou pronto em apenas 18 meses, e sem dúvida os átrios só foram terminados no ano 64 d.C..
Este Templo foi destruído no ano 70 d.C., pelos Romanos.


BIBLIOGRAFIA:
- Bíblia Sagrada – Sociedade Bíblica do Brasil
- A Bíblia - Editora Vozes.
- Bíblia de referência de Thompsom
Especial:
As razões israelenses e palestinas no conflito
As razões dos
israelenses
Carlos Mendo / M. A. Bastenier
História, mito ou lenda? Dá na mesma. Vocês escolhem. A realidade é que no
ano 74 da era cristã, no reinado de Tito, a 10ª legião romana teria cercado a
única guarnição judia, Masada, que resistia ao assédio das tropas de Roma. A
situação era insustentável depois de vários meses de cerco implacável. Na
noite anterior ao assalto final romano, os defensores de Masada, em sua maioria
zelotes, com alguns fariseus e saduceus, que acreditavam firmemente que sua
desgraça se devia mais aos pecados da nação judia do que aos êxitos de Roma,
se decidiram pela auto-imolação para não cair nas mãos dos sitiadores. Cerca
de mil pessoas, segundo o historiador Flávio Josefo em sua "História da
Guerra Judia", pereceram nas mãos de seus pais e maridos. Os últimos dez
ocupantes da fortaleza, uma impressionante elevação de rochas sobre o mar
Morto, sortearam quem devia matá-los. Finalmente, o último sobrevivente se
suicidou. Foi uma espécie de Numância, versão Terra Santa.
Passaram-se 20 séculos e o espírito de Masada continua vivo. Todos os anos,
recrutas de unidades de elite do Tsahal, o exército israelense, sobem com todos
os seus apetrechos até o cume do monte -cinco horas de dura escalada- e
prometem fidelidade à estrela de Davi com um juramento em hebraico, cuja tradução
seria algo como: "Masada não cairá novamente!" Em outras palavras:
"Não permitiremos uma nova Masada!" Ou "morreremos matando,
antes de permitir nossa aniquilação".
Obsessão por segurança
Qualquer interpretação que se pretenda dar à intolerável espiral de violência
que sacode o Oriente Médio que ignore a mais que razoável obsessão israelense
por sua segurança está condenada de antemão ao fracasso. Não se trata
exclusivamente de fazer análises históricas, embora não fosse demais recordar
as perseguições e expulsões de judeus nos últimos 20 séculos, que culminam
na "solução final" nazista --apoiada por vários importantes líderes
árabes na época, incluindo o Grande Mufti de Jerusalém--, mas de analisar com
dados objetivos a história de Israel desde a divisão do antigo Protetorado
Britânico da Palestina em 1947, decretada pela então nascente Organização
das Nações Unidas.
Foram os sete países do mundo árabe então representados na ONU, e não
Israel, que votaram contra o estabelecimento do Estado hebreu. E foram os exércitos
dos países árabes que invadiram Israel em maio de 1948, minutos depois da
retirada britânica, com o caridoso objetivo de atirar ao Mediterrâneo os 675
mil judeus que habitavam o território. E não precisamente por amor aos
palestinos, mas com uma dupla finalidade: a eliminação física de Israel e
suas próprias aspirações nacionalistas sobre a velha Palestina. Não se deve
esquecer que em uma intervenção diante do Conselho de Segurança da ONU em
1963, quer dizer, 15 anos depois da divisão, o antecessor de Arafat na liderança
palestina, Ahmed Shukeiri, ainda definia a Palestina como parte da Síria.
Israel sofre agressões contínuas por parte de seus vizinhos árabes e em 1956
se alinha com a França e o Reino Unido na invasão de Suez, porque antes era
negada a passagem a seus navios pela via marítima egípcia, o que equivalia a
seu estrangulamento econômico; em 1967, por parte da Síria e do Egito
--contundente derrota árabe na Guerra dos Seis Dias e princípio da ocupação--
e finalmente em 1973 com a Guerra do Yom Kipur, a mais sangrenta em termos de
vidas humanas israelenses graças aos êxitos iniciais dos exércitos árabes.
"Síndrome do sitiado"
Com ou sem razão, a grande maioria da população israelense --5 milhões de
judeus de um total de 6 milhões de habitantes-- vive mergulhada no que se
poderia qualificar de síndrome do sitiado. Uma ilha, cercada como todas as
ilhas, rodeada de um mar hostil, cujas ondas ameaçam varrer Israel do mapa.
Apesar de propostas e contrapropostas de todo tipo, os israelenses de todas as
tendências não deixam de acreditar que existe uma real vontade árabe de
respeitar sua existência como Estado. Por isso, quando encontram interlocutores
de credibilidade, leia-se Anuar Sadat ou o rei Hussein da Jordânia, não
duvidam em arriscar sua segurança --do ponto de vista militar, a devolução
total do Sinai ao Egito constitui uma barbaridade estratégica-- e se apressam
em assinar tratados de paz com seus antigos inimigos. Diante desses avanços em
prol da paz, Israel enfrenta reivindicações maximalistas como as encarnadas
por Iraque, Irã e Líbia, países que incluem de vez em quando entre seus fins
a destruição do Estado hebreu.
Falta de confiança
Por que Israel pode alcançar acordos de paz com o Egito e a Jordânia e não
com a Autoridade Nacional Palestina? Simplesmente porque os israelenses,
inclusive os mais entusiastas pacifistas, não confiam em Arafat como confiaram
em Sadat e Hussein. Arafat perdeu o crédito que lhe restava em Israel com sua
recusa às propostas apadrinhadas por Ehud Barak e Bill Clinton no segundo
encontro em Camp David.
Ninguém em seu pleno juízo em Israel pensa nas antigas políticas
expansionistas do Eretz Israel, ou Grande Israel. Mas o sentimento generalizado
é de que Arafat no fundo pensa que Israel é a versão moderna do Reino de
Jerusalém estabelecido pelos cruzados na Alta Idade Média. Um marco na secular
história da Palestina que mais cedo ou mais tarde se desintegrará.
Atenção para a interpretação que os protagonistas do drama fazem dos
diversos documentos que se discutem nas últimas semanas, desde a resolução do
Conselho de Segurança da ONU até o esboço saudita que se apresentará na cúpula
árabe de Beirute no fim do mês. O termo "fronteiras seguras" não é
lido igualmente em Ramallah e em Jerusalém.
O verdadeiro problema, como recentemente definiu um membro do Washington
Institute, um dos muitos bancos de cérebros americanos, é que na Palestina há
"história demais e geografia de menos" --exatamente 21 mil quilômetros
quadrados.
As razões dos
palestinos
M. A. Bastenier
Uma das coisas mais surpreendentes com que se depara o visitante de Israel e
Palestina é o escasso conhecimento que o israelense tem do palestino, do que
quer o palestino, do que sente o palestino. E isso na minha opinião tem muito a
ver com a solução do problema da Terra Santa. Evidentemente há exceções,
como o historiador Ilan Papé e possivelmente o grande conhecido da Espanha
Shlomo Ben Ami, embora, com o que está acontecendo, todas essas almas encontrem
um clima cada vez menos propício para se expressar.
Quando em fevereiro de 2001 Ariel Sharon foi eleito chefe do governo de Israel,
em contraposição ao candidato trabalhista, Ehud Barak, o jornalista israelense
Joel Markus felicitou no jornal Haaretz,
com sarcasmo equivocado, Yasser Arafat por "ter conseguido fazer eleger
Sharon" contra os interesses de seu povo, quando "era evidente"
que do líder de ultra-direita do Likud não podiam esperar nada, enquanto com
Barak estariam "tão perto" de encontrar uma solução para o problema
palestino.
O analista israelense não se deu ao trabalho, aparentemente, de perguntar por
que os árabes tinham se abstido de apoiar o trabalhismo, como em ocasiões
anteriores, porque estes lhe teriam explicado que já estavam cansados de votar
num partido que em quase 30 anos de ocupação exaustiva do poder não tinha
feito nada, ou pelo menos não o suficiente, para resolver o conflito. Mesmo
sabendo perfeitamente que com sua abstenção estavam contribuindo indiretamente
para a vitória do grande nacionalista, eles o faziam porque preferiam a verdade
nua de uma ocupação sem negociações dignas desse nome à farsa a que o
trabalhismo, ultimamente de Peres e Rabin e em seu tempo de Ben Gurion e Golda
Meir, tinha feito sofrer o povo palestino. O eleitor árabe se abstinha por puro
esgotamento, e a direção palestina preferia ter pela frente um Sharon indiscutível
em seu propósito de dominação pela violência que um Barak que já tinha
demonstrado que não era capaz de oferecer o mínimo que o povo sitiado crê que
pode aceitar.
Se é um erro ou não ter preferido um repressor desenfreado a um repressor
relativamente contido é questão irrelevante diante do que se discute aqui. O
palestino aceitava com plena convicção que Sharon fosse eleito, enquanto
grande parte da opinião israelense se interrogava o porquê do que era
simplesmente uma evidência.
O que a grande maioria do povo palestino quer --provavelmente ainda hoje, mas não
é certo que amanhã-- para fazer a paz? O que é que Israel parece não querer
saber, talvez porque não queira se olhar num espelho no qual, como Dorian Gray,
poderia ver um rosto em que não quer se reconhecer? O rosto de um Estado que há
35 anos submete a uma ocupação militar, e hoje a uma repressão selvagem, um
povo ao qual a ONU, mas sobretudo um consenso quase universal e democrático,
reconhece todos os direitos sobre uma terra que o governo de Jerusalém ocupa só
por direito de conquista; o rosto de uma ocupação que alentou o crescimento de
uma minoria imperialista pela via religiosa e que, segundo mais de um autor
judeu, inclusive sionista, está vilipendiando o Estado e a sociedade
israelenses.
Faisal el Husseini, até o verão passado ministro da Autoridade Palestina para
Jerusalém, onde morreu aos 60 anos de ataque cardíaco, e uma das grandes
dinastias históricas da cidade árabe, o explicava com a prudência e o temor
velado pelo futuro próprios do grande senhor que era.
Israel, ele dizia, precisa primeiro perceber o que fez, olhar-se nesse espelho e
reconhecer que contribuiu decisivamente para a expulsão de mais de 700 mil
palestinos de sua terra, de seu país na guerra de 1948 --sem que isso exclua a
responsabilidade dos Estados árabes limítrofes--, o que redundou com outra
debandada, embora menor, na guerra de 1967. E que, como conseqüência disso
tudo, o povo judeu que foi expulso de seus lares e algo sem dúvida pior, quase
exterminado pelo regime nazista, há mais de meio século, seja capaz agora de
expressar um sentimento de culpa pelo sucedido. Chama-se a isso pedir perdão? Não
creio que Husseini quisesse discutir por questões de terminologia, se o remorso
e a culpa ficassem suficientemente claros.
Esse ponto de partida, o sentimento de culpa, seria essencial para dissipar as
brumas do que é de modo geral o principal problema para que haja paz um dia na
Terra Santa: o regresso ou a compensação a cerca de 4 milhões de refugiados,
os então expulsos e seus descendentes. Husseini, como a imensa maioria dos
dirigentes palestinos, compreende que Israel não pode admitir o retorno de 4
milhões de árabes porque isso despojaria o Estado de todo o seu conteúdo como
refúgio da diáspora mundial judia. E acrescentava que, assim como o império
britânico expedia --e expede-- passaportes para os habitantes de Gibraltar e até
pouco tempo de Hong Kong, com direito a visita, a estadia relativamente
prolongada, mas não à residência permanente na Grã-Bretanha, esse caminho,
junto com o da admissão de algumas dezenas de milhares de pessoas, a instalação
de muitas outras em uma Palestina independente, e a compensação econômica aos
que ficaram, seria uma primeira grande plataforma de acordo para a paz.
Repatriação de colonos
Husseini acrescentava que Israel faria bem em aceitar essa oferta, a melhor
oferta possível do povo palestino para obter um selo indiscutível de
legitimidade nacional no Oriente Médio, porque se hoje entre Israel e Palestina
há cerca de 5 milhões de judeus e um número pouco inferior -mais de 4 milhões
de árabes-, dentro de dez ou 20 anos, quando o número de palestinos triplicar
ou quadruplicar o de judeus, dado seu índice de crescimento muito maior, seria
extraordinariamente duvidoso, dizia ele, que uma oferta de semelhante beleza
pudesse se repetir.
Isso nos leva naturalmente a determinadas obviedades territoriais. Para que essa
repatriação --se não diretamente para casa, a uma paisagem familiar-- fosse
possível e para que a compulsão israelense tivesse sentido, seria preciso que
o Estado sionista se limitasse a cumprir as resoluções da ONU que estabelecem
inequivocamente, como disse o próprio autor da 242, o britânico lorde
Carrington, a retirada total dos territórios ocupados, e não, com uma lenda
tenaz que nem mesmo os Estados Unidos defendem em público, de apenas de uma
parte deles. Essa retirada --o que se liga diretamente à proposta saudita--
obrigaria, e é esse o problema, à evacuação de grande parte dos 400 mil
colonos instalados na Cisjordânia, Gaza, Golan e muito particularmente em
Jerusalém Leste, a parte da cidade que em 1967 tinha uma superfície de alguns
quilômetros quadrados e hoje, pelas sucessivas ampliações decretadas pelo
governo israelense, passa dos 300, porque é presumível que poucos colonos
desejariam viver sob a soberania palestina. A retirada implica também, de outra
parte, o abandono dos lugares santos do judaísmo na Cidade Velha, pelo menos em
forma de um primeiro acordo de princípios. Mas isso não impede que Arafat, o
falecido Husseini e todos os palestinos não ligados ao Hamas e à Jihad Islâmica,
digo novamente porque os números na Terra Santa são coisa do diabo, ainda
sejam uma maioria partidária de algum acordo, do tipo internacionalização,
soberania compartilhada ou direito de uso desses poucos hectares de terra
votiva.
Da mesma forma, os citados representantes da parte palestina tampouco excluem
permutas de território entre os dois Estados, mas só a partir de uma independência
mútua; quer dizer, que terra equivalente em extensão e qualidade de Israel
compensasse a Palestina pela perda de alguma franja de país que fosse cedida
para facilitar a permanência de uma parte dos colonos, ali onde, com evidentes
desígnios de estabelecer futura negociação, os instalou com uma mão o Estado
sionista enquanto com a outra agitava em sinal de paz.
Tudo isso fica muito distante da famosa oferta de Barak a Arafat na cúpula de
Camp David em julho de 2000, embora Israel tenha conseguido com o inestimável
concurso de um presidente, Bill Clinton, bem-intencionado mas afeito às teses
sionistas, que se consolidasse a idéia de que o líder israelense tinha
oferecido 94% da Cisjordânia. Mas nem a aritmética engana.
Esses 94% eram da Cisjordânia, mas só descontando primeiro a Grande Jerusalém
que, à base de decretos municipais, já ocupa 6% do país, de forma que a
oferta era na realidade 94% de 94%, ou seja, cerca de 89%. Sobre essa magnitude,
Barak ainda propunha que a Palestina arrendasse a Israel 3% ou 4% de terra, o
que equivalia dizer que esse terreno desaparecia como possível lugar de acomodação
para os que quisessem usar seu direito ao retorno, e com isso já temos a conta
reduzida a pouco mais de 85% do país; finalmente, Barak exigia alguma permuta
de terras, mas com acordo na disparatada proporção de 3 para 1; quer dizer, 1
quilômetro quadrado de quintal israelense por 3 de horta palestina.
Assim os 94% da conta se transformavam em pouco mais de 80% e, por acréscimo,
como dentro desses 20% que Israel anexava figuravam cinco bases militares
situadas ao longo do vale do Jordão, o perfil dos 80% restantes resultava tão
confuso que o futuro Estado palestino seria dividido em mais de uma dúzia de
fragmentos separados entre si por 480 quilômetros de vias de comunicação
israelenses, que seriam sempre consideradas propriedade do ocupante.
A oferta de Barak
Essa é a oferta que Arafat recusou e à qual o falecido Husseini contrapunha o
argumento antecedente. E também essa proposta do aristocrata árabe é a que,
provavelmente hoje, continua sendo válida para a maioria do povo palestino. Uma
proposta que quase envergonha ter de salientar que não apenas não é
anti-semita, epíteto que se atribui com a desenvoltura irracional a tudo aquilo
que não corrobora as posições de Israel, como tampouco é anti-sionista, já
que se baseia, como pede o sentimento democrático universal, na consagração
da existência de um Estado de Israel, ao amparo de qualquer desígnio externo,
reconhecido por todos os seus vizinhos, e que se estenderia, de acordo com o
retrocesso às fronteiras anteriores a junho de 1967, sobre mais de 75% da
Palestina do mandato britânico.
Esse extremo é importante porque, segundo a divisão que fez a ONU em 1947, a
Israel cabiam 55% e a um eventual Estado palestino, os 45% restantes, mais a
internacionalização em Jerusalém e um território intermediário a seu redor.
É certo que foram os árabes que recusaram essa divisão, motivo pelo qual na
guerra de 1948 Israel pôde ampliar seu território a mais dos 75% atuais. E
isso é aceito hoje pelo mundo inteiro, assim como possivelmente pela maioria
palestina. Mas nem um passo a mais.
Não jogar essa aposta, porque não se deve negar que pode acabar sendo isso, é
aceitar a visão de Husseini de um futuro no qual não existe nenhum tipo de
porcentagem que evite a guerra. E nesse contexto Sharon, por mais impiedosa que
seja hoje sua conduta, é apenas um sintoma de um mal. Mas tudo pode mudar se um
dia Israel decidir se olhar no espelho.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
A maior parte deste material foi cedido pelo Dr. Francisco Carlos Cerqueira.