ISÍS
Nenhuma
personalidade do panteão egípcio pode rivalizar com a deusa Ísis, sublime essência
da alma de uma das mais excelsas e proeminentes civilizações da antiguidade e
maga detentora do esplendor ofuscante que a conduziu até ao auge da
popularidade. Surgindo na teologia heliopolitana como fruto dos amores entre o céu
(Nut) e a terra (Geb), Ísis reinara com uma sabedoria incontestável nas Duas
Terras, o Alto e o baixo Egipto, muito antes do nascimento das dinastias. O amor
que unia Ísis a Osíris em ternos esponsais vestia a sua alma com uma
felicidade que abraçava o Infinito. Todavia, em breve a doce melodia que tão mítica
perfeição dedilhava na harpa da sua vida seria, pelas trevas, resumida a um
rol de acordes dissonantes, orquestrados numa sinfonia de silêncio e dor.
Tão vil prelúdio de uma noite sem fim surgiu sob a forma de um convite de Seth,
que solicitava afavelmente a presença de seu irmão Osíris num banquete. Sem
jamais cogitar que se tratava de uma ímpia conjuração, Osíris não declinou
a oferta, colocando-se então à mercê de um execrável assassino. Algures no
decorrer do banquete, Seth apresentou um caixão de proporções verdadeiramente
excepcionais, assegurando que recompensaria generosamente aquele que nele
coubesse. Imprudente, Osíris aceitou prontamente o desafio, permitindo que Seth
e os seus acólitos pregassem a tampa e consequentemente o tornassem escravo da
morte. Cometido o hediondo crime, o assassino Seth, que cobiçava ocupar o trono
de seu irmão, lança a urna ao Nilo, para que o rio a conduzisse até ao mar,
onde veio a perder-se. Este trágico incidente deu-se no décimo sétimo dia do
mês Athyr, quando o Sol se encontra sob o signo de Escorpião. Quando Ísis
tomou conhecimento do ocorrido, baniu de sua alma todo o desespero que a
assombrava e abraçou a resolução de procurar o seu marido, a fim de lhe
restituir o sopro da vida. Assim, cortou uma madeixa do seu cabelo, estigma da
sua desolação, colocou o seu vestuário matutino e errou por todo o Egipto, na
ânsia de ver a sua diligência coroada de êxito.
Por seu turno, e após haver dançado nas ondas do mar, a urna atingiu
finalmente uma praia, perto da Babilónia, na costa do Líbano, enlaçando-se
nas raízes de um jovem tamarindo, cujo prolixo crescimento a prendeu no
interior do seu tronco. Ao alcançar o clímax da sua beleza, a imponente árvore
atraiu a atenção do rei desse país, persuadindo-o a ordenar ao seu séquito
que o tamarindo fosse derrubado, com o fito de ser utilizado como pilar na sua
casa. Em simultâneo com o crescimento da referida árvore, Ísis prosseguia tão
exaustivas busca pelo cadáver de seu marido, pelo que, ao escutar as histórias
tecidas em torno da surpreendente árvore, tomou de imediato a resolução de ir
à Babilónia, na esperança de ultimar enfim e com sucesso a sua odisseia. Ao
chegar ao seu destino, Ísis sentou-se perto de um poço, ostentando um disfarce
humilde e brindou os transeuntes que por ela passavam com um rosto lavado em lágrimas.
Os relatos da sua inusitada condição rapidamente chegaram aos reis da Babilónia,
que, intrigados, propuseram-se a conhecer o motivo de tanto desespero. Quando Ísis
os viu estancar defronte de si, presenteou-os com saudações cordiais,
reverentes e, solicitou-lhes que permitissem que os seus cabelos ela entrançasse.
Uma vez que os regentes, embora servos da perplexidade, não impuseram qualquer
veto ao seu convite, Ísis uniu o gesto à palavra, incensado as tranças que
talhava pouco a pouco com o divino perfume exalado por seu ástreo corpo.
Ultimado tão peculiar ritual, a rainha da Babilónia apressou-se a contemplar o
resultado final, sendo enfeitiçada pelo irresistível aroma que seus cabelos
emanavam. Literalmente inebriada por tão doce perfume dos céus, a rainha
ordenou então a Ísis que a acompanhasse até ao palácio.
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Assim, a deusa franqueou a entrada do palácio do rei da
Babilónia, junto do qual conquistou o privilégio de tornar-se na ama do filho
recém-nascido do casal régio, a quem amamentava com o seu dedo. Devido aos laços
que a vinculavam à criança, Ísis desejou conceder-lhe a imortalidade, pelo
que, todas as noites, a queimou, num fogo divino e, como tal, indolor, para que
as suas partes mortais ardessem no esquecimento. Certa noite, durante este
processo, ela tomou a forma de uma andorinha, a fim de cantar as suas lamentações.
Maravilhada, a
rainha seguiu a melopeia que escutava, entrando no quarto do filho, onde se
deparou com um ritual aparentemente hediondo. De forma a tranquilizá-la, Ísis
revelou-lhe a sua verdadeira identidade, e ultimou precocemente o ritual, mesmo
sabendo que dessa forma estaria a privar o pequeno príncipe da imortalidade que
tanto desejava oferecer-lhe. Observando que a rainha a contemplava, siderada, Ísis
aventurou-se a confidenciar-lhe o lancinante incidente que a coagira a visitar a
Babilónia, conquistando assim a confiança e benevolência da rainha, que
prontamente aquiesceu em ceder-lhe a urna que continha os restos mortais de seu
marido. Dominada por uma intensa felicidade, Ísis apressou-se a retirá-la do
interior do pilar. Porém, fê-lo com tão negligente brusquidão, que os seus
escombros de pedra espalharam-se por toda a divisão, atingindo, mortalmente, o
pequeno príncipe. Na realidade, existem inúmeras versões deste fragmento da
lenda, uma das quais afirma que a rainha expulsou Ísis, ao vislumbrar o
aterrador ritual, pelo que esta retirou a urna, sem o consentimento dos seus
donos. Porém, a veracidade desta versão semelha-se deveras suspicaz...
Com a urna em seu poder, Ísis regressou ao Egipto, onde a abriu, ocultando-a,
seguidamente, nas margens do Delta. Numa noite, quando Ísis a deixou sem vigilância,
Seth descobriu-a e apoderou-se, uma vez mais dela, com o intento de retirar do
seu interior o corpo do irmão e cortá-lo em 14 pedaços, que foram, em
seguida, arremessados ao Nilo. Ao tomar conhecimento do ocorrido, Ísis
reuniu-se com a sua irmã Néftis, que não também tolerava a conduta de Seth,
embora este fosse seu marido, e, juntas, recuperaram todos os fragmentos do cadáver
de Osíris, à excepção, segundo refere Plutarco, escritor grego, do seu sexo,
que fora comido por um peixe. Novamente deparamo-nos com alguma controvérsia,
uma vez que outras fontes egípcias afirmam que todo o corpo foi recuperado.
Acto contínuo, Ísis organizou uma vigília fúnebre, na qual suspirou ao cadáver
reconstituído do marido: “Eu sou a tua irmã bem amada. Não te afastes de
mim, clamo por ti! Não ouves a minha voz? Venho ao teu encontro e, de ti, nada
me separará!” Durante horas, Ísis e Néftis, de corpo purificado,
inteiramente depiladas, com perucas perfumadas e boca purificada por natrão
(carbonato de soda), pronunciaram encantamentos numa câmara funerária ignota,
que o incenso queimado impregnava de espiritualidade. A deusa invocou então
todos os templos e todas as cidades do país, para que estes se juntassem à sua
dor e fizessem a alma de Osíris retornar do Além.
Uma vez que todos os seus esforços revelavam-se vãos, Ísis assumiu então a
forma de um falcão, cujo esvoaçar restituiu o sopro de vida ao defunto,
oferecendo-lhe o apanágio da ressurreição. Seguidamente, Ísis poisou no sítio
do desaparecido sexo de Osíris, fazendo-o reaparecer por magia, e manteve-o
vivo o tempo suficiente para que este a engravidasse. Em contraste, outras
fontes garantem que Osíris e a sua esposa conceberam o seu filho, antes do deus
ser assassinado pelo seu irmão, embora a versão mais comum seja a relatada,
primeiramente. Assim, ao retornar à terra, Ísis encontrava-se agora grávida
do filho, a quem protegeria até que este achasse-se capaz de enfrentar o seu
tio, apoderando-se (como legítimo herdeiro) do trono que Seth havia usurpado.
Alguns declaram que Ísis, algum tempo antes do parto, fora aprisionada por Seth,
mas que Toth, vízir de Osíris, a auxiliara a libertar-se. Porém, muitos
concordam que ela ocultou-se, secretamente, entre os papiros do Delta, onde se
preparou para o nascimento do filho, o deus- falcão Hórus. Quando este nasceu,
Ísis tomou a decisão de dedicar-se inteiramente à árdua incumbência de
velar por ele. Todavia, a necessidade de ir procurar alimentos, coagiam-na
pontualmente a ausentar-se, deixando assim o pequeno deus sem qualquer protecção.
Numa dessas ocasiões, Seth transformou-se numa serpente, visando espalhar o seu
veneno pelo corpo de Hórus, pelo que quando Ísis regressou da sua diligência,
encontrou o seu filho já próximo das morte.
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Todavia, a sua vida não foi ceifada, devido a um poderoso
feitiço executado pelo deus- sol, Ra.
Dada a sua devotada protecção, Ísis era constantemente representada na arte
egípcia a amamentar tanto o seu filho, como os faraós. Sendo um dos mais
populares vultos da mitologia egípcia, cujo nome é representado por um trono
(e crê-se que terá mesmo esse significado), Ísis assume o lugar de deusa da
família e do casamento, a quem foram concedidos extraordinários poderes
curativos, empregues, essencialmente, para salvar crianças de mordeduras de
cobras. Devido às suas qualidades maternais, surge, por vezes, com a forma de
uma porca ou de uma vaca, o que leva a que seja confundida com Háthor (deusa do
amor), com quem, na realidade, se fundiu, na Época Baixa (664-332 a.C./ XXVI-
XXX Dinastias), período de tempo em que o seu culto atingiu o auge. Deste modo,
o seu culto proliferou-se por toda a bacia mediterrânea, na qualidade de Ísis-
Afrodite, o que demonstra bem a forma como os romanos lhe prestavam culto,
esculpindo imagens em sua homenagem, nas quais ela surgia, muitas vezes, com uma
túnica que flutua ao vento e com um toucado composto por espigas, chifres de
vaca, um disco solar e penas de avestruz.
Em torno do seu temperamento bravio (tão díspar da sua maternidade e benevolência!),
teceu-se igualmente outra lenta, que narra a forma como Ísis, intrigada com o
segredo que sustinha os poderes de Ra, conjura para obter o nome secreto do
Senhor Universal, matriz das suas forças e esplendor. Assim, recolhe um pouco
da sua saliva, amassa-a com terra e, com essa argila, molda uma serpente em
forma de flecha, que coloca na encruzilhada dos caminhos desbravados pelo
cortejo solar. Escrava da magia de Ísis, a serpente não hesita em morder Ra à
sua passagem, que, com um silvo de dor, desfalece. Quando recupera a consciência,
o deus- sol evoca, desesperado, todos os deuses, relatando-lhes o seu infortúnio:
“ O meu pai e a minha mãe ensinaram-me o meu nome e eu dissimulei-o no meu
corpo, para que mago algum o possa pronunciar como malefício para mim. Tinha eu
saído para contemplar a minha criação, quando algo que desconheço me mordeu.
Não foi nem fogo, nem água; mas o meu coração está em chamas, o meu corpo
treme e os meus membros estão frios. Tragam-me os meus filhos, os que conhecem
as fórmulas mágicas e cuja ciência chega aos céus!”. Ísis debruça-se
sobre Rá e, simulando uma estupefacção imensurável, questiona: “ Que se
passa? Ter-se-ia um dos teus filhos erguido contra ti? Então, destruí-lo-ei
graças ao meu poder mágico e farei com que seja expulso da tua vista!”
Quando o deus- sol lhe confidenciou a matriz do seu padecimento, Ísis
assegurou-lhe que somente lhe entregaria o vital antídoto, caso este lhe
revelasse a origem das suas imensuráveis forças.
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Exasperada por Rá se negar a atender á sua reivindicação,
Ísis solicitou, novamente: “Diz-me o teu nome, meu divino Pai! Porque o homem
só revive quando é chamado pelo seu nome!”
Escravizado pelo desespero, a personificação da luz oferece a Ísis um rol
interminável de nomes falsos, na ânsia de que a deusa não alcançasse a
percepção de que ele procurava ludibriá-la. Todavia, Ísis replicou: “ O
teu nome não está entre aqueles que citaste! Diz-mo e o veneno abandonará o
teu corpo, porque o homem revive quando o seu nome é pronunciado.”
Subjugado pela dor, Rá aceita o ultimato, mesmo sabendo que tal concederia a Ísis
autoridade sobre a sua pessoa. Num suspiro, declara então: “Olha, minha filha
Ísis, de modo que o meu nome passe do meu corpo para o teu... Mal ele saia do
meu coração, repete-o ao teu filho Hórus, submetendo-o a um juramento
divino!”
Na realidade, todas as deusas egípcias possuíam esta dualidade, que as
colocava entre a crueldade extrema e a indulgência infinita, num jogo de luzes
e sombras que não as impediram de ser adoradas através dos tempos. A sua
imagem é omnipresente e tanto cobre os sumptuosos santuários do Vale do Nilo,
como os mais íntimos testemunhos de devoção pessoal. Porém, ao percorrermos
o Egipto, deparamo-nos com três locais particularmente abençoados com a magia
de Ísis:
Behbeit el- Hagar, no
Delta, onde um sumptuoso templo foi erigido em honra de Ísis. Malogradamente, o
halo de magia e espiritualidade que nimba esta excelsa deidade revelou-se
impotente para deter aqueles que, não votando qualquer respeito pela sua índole
sagrada, cometeram a ignomínia de destruir tão colossal santuário, onde os céus
se reflectiam e renovavam num jogo divino, a fim de o transformar numa pedreira.
Consequentemente, Behbeit el- Hagar é na actualidade um local quase
literalmente desconhecido dos turistas e que semeia uma franca desilusão nos
corações dos intrépidos que ainda o ousam visitar, pois a grandeza daquele
que fora outrora um templo dedicado a uma divindade verdadeiramente excepcional
resume-se agora a um monte de escombros e blocos de calcário ornados de cenas
rituais.
Dendera, no alto
Egipto, eterno berço de feitiços onde Ísis desabrochou para a vida, onde nos
deparamos com um santuário de Háthor parcialmente conservado, com um templo
coberto e com o mammisi, ou seja, “templo do nascimento de Hórus), assim como
com um exíguo santuário, onde a etérea Ísis nasceu, deslumbrando o mundo com
sua pele rosada e revolta cabeleira negra.
Filae, ilha- templo
de Ísis, que serviu de refúgio à derradeira comunidade iniciática egípcia,
mais tarde (séc. VI d. C., mais precisamente) exterminada por cristãos
escravos do fanatismo.
Verónica Freitas