Parnasianismo
Paralelamente à prosa realista naturalista, surgiu uma escola de poesia com características bem marcantes. Seu nome, Parnasianismo, veio da revista francesa Le Parnasse Contemporain, editada pela primeira vez em 1866. Parnaso é o nome de uma montanha grega consagrada a Apolo e às musas inspiradoras das artes. Em torno de Le Parnasse Contemporain reuniram-se Théophile Gautier, Théodore Banville, Leconte de Lisle, Heredia, Baudelarie, Phudhomme e outros.
O Parnasianismo zelava pela composição perfeita do verso, procurando fugir dos cacoetes românticos: a banalidade dos temas, o descuido das composições, o derramamento sentimental precisavam agora ser sanados pela razão, pela ciência e pelos valores supremos da época.
O papel do poeta seria esculpir o poema, criar o Belo, sem preocupações de ordem social ou moral. O Parnasianismo defendia a "arte pela arte".
Características
Podemos sintetizar assim as principais características dessa escola:
· A perfeição está na forma.
· Linguagem é, antes de tudo, correção e equilíbrio.
· Sobriedade no emprego de figuras.
· Musicalidade dos versos, adquirida na variedade de vogais
· A impassibilidade do poeta diante a obra.
· Fuga dos sentimentos vagos, para ter visão real.
· Riqueza vocabular, rima rica e condenação de hiatos.
· Ênfase descritiva nos pequenos objetos, vasos, estatuetas, alfaias, flautas, taças, etc.
· Culto a arte pela arte.
· Preferência pela forma de soneto.
HISTÓRIA
Da França, o Parnasianismo difundiu-se especialmente pelos países latinos. Na Espanha o movimento parnasiano aparece junto com o Simbolismo, constituindo o modernismo de Salvador Rueda e Rubém Darío, não tendo havido nenhum poeta parnasiano absoluto. Maior êxito alcançou, todavia, na América Espanhola, onde teve grandes representantes, como Lugones, Santos Chocano, Guilhermo Valencia, Gutiérry Nájera, Herrera y Reissig e outros. Em Portugal, há que citar Gonçalves Crespo, João Penha, Antônio Feijó, entre outros.
No Brasil, o movimento parnasiano teve grande importância, não somente pelo grande número de poetas, senão também pela extensão de sua influência. Teve doutrina e dominou por muito tempo a vida literária. Na década de 1870, a poesia romântica de mostras de cansaço, e já no próprio Catro Alves se podem apontar elementos precursores de uma poesia realista. Assim, entre 1870 e 1880, assiste-se, no Brasil, à liquidação do Romantismo, submetido a uma crítica severa por parte da geração nova, insatisfeita com a sua estética e aspirando a novas formas de arte, que se inspirassem nos ideais positivistas e realistas do momento.
A crítica foi rigorosa, com Sílvio Romero , com o grupo da Revista de Ciências de São Paulo, com Ramundo Correia, a batalha do Parnaso, no Diário do Rio de Janeiro etc. Assim, abriu-se a década de 1880 para a poesia científica, a socialista e a realista, primeiras manifestações da reforma que se caracterizaria para o Parnasianismo. Este apareceria por influência de Gonçalves Crespo, e, sobretudo, de Arthur de Oliveira, o principal propagandista do movimento a partir de 1877 quando chegou de viagem a Paris. Assim, o parnasianismo brasileiro surge timidamente nos versos de Luís Guimarães, Teófilo Dias , e se firma definitivamente com Raimundo Correia , Alberto de Oliveira , Olavo Bilac.
O parnasianismo brasileiro não é uma exata reprodução do francês, a despeito da grande influência que dele recebeu. Não obedece à mesma preocupação de objetividade , com o cientificísmo e as descrições realistas. Foge da sentimentalidade romântica, mas não exclui o subjetivismo. Sua preferência dominante é pelo verso alexandrino de tipo francês, com rimas ricas e raras, e pelas formas fixas, máxime o soneto...AUTORES
..No Brasil, a escola parnasianista teve, entre seus representantes, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia, Olavo Bilac, Vicente de Carvalho, Amadeu Amaral, Hermes Fontes, Francisca Júlia e Teófilo Dias.
Principais Autores
Olavo Bilac
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac nasceu e morreu no (1865-1918). Abandonou a Faculdade de Rio de Janeiro Medicina concluí-la. Em São Paulo, estudou dois antes de anos Faculdade de Direito. De volta ao rio, ingressou no na jornalismo. Nos últimos anos de vida, lutou pelas causas cívicas, sobressaindo-se no combate ao analfabetismo e na campanha serviço militar obrigatório.
É um dos poetas mais lidos da língua portuguesa, não somente pela qualidade de sua poesia, como também pela grande popularidade de que passou a gozar, quando se envolveu com divulgação dos valores nacionalistas. Seu principal livro, Poesias, continua sendo reeditado com grande aceitação do público. Seus versos primam pela perfeição formal e alguns tornaram-se antológicos, como Via láctea e O caçador de esmeraldas.
Hoje, no dizer de Alfredo Bosi, "parece conselho da melhor crítica reconhecer em Bilac não um grande poeta, mas um poeta eloqüente, capaz de dizer com fluência as coisas mais dispares, que o trocam de leve, mas o bastante para se fizerem, em suas mãos, literatura
Obras
Olavo Bilac, em "Profissão de fé", sintetizou os valores máximos do Parnasianismo:
Profissão de fé
Invejo o ourives
quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto-relevo
Faz da uma flor.
Por isso, corre, por
servir-me,
Sobre o papel
A pena, como em prata firme
Corre o cinzel.
Torce, aprimora,
alteia, lima
A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,
Como um rubim.
Quero que a estrofe
cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito:
Assim procedo. Minha
pena
Segue esta norma,
Por servir, Deusa serena,
Serena Forma!
Poesias: Panóplias, Via láctea, Sarças de fogo (1888); Sagres (1889); Poesias infantis (1904); Tarde (1919).
Prosa: Crônicas e Novelas (1894); Crítica e fantasia (1904); Tratado de versificação (1905); Conferências literárias (1916); Ironia e piedade (1916); A defesa nacional (1917); Bocage (1917); Últimas conferências e discursos (1927).
A um poeta
Longe do estéril
turbilhão da rua,
Bentinho, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!
Mas que na forma se
disfarce o emprego
Do esforço; e trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mais sóbria, como um templo grego.
Não se mostre na fábrica
o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Porque a Beleza, gêmea
da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.
Bilac, Olavo. In:
Tavares, Hênio. Teoria literária 4. ed.
Belo Horizonte, Bernardo Álvares, 1969. p. 89.
Raimundo Correia
Raimundo da Motta Azevedo Correia nasceu em 1980, a bordo do navio brasileiro São Luís, em águas do Maranhão. Formado em Direito por São Paulo, seguiu as carreiras de magistrado e de professor. Faleceu em Paris, em 1911.
Raimundo Correia, no dizer de Coelho Pedro Luft, "é geralmente considerado pela crítica como o maior dos parnasianos brasileiros, preeminência merecida pela sua transcendente mensagem poética e consumada arte do verso. (...) Poeta de idéias, no consenso geral tido como filósofo, preocupou-se com os valores universais e eternos, com a problemática existencial humana, o que traduz em termos de amargo desencanto e pungente lirismo".
Dentre todos os seus méritos que teve, salienta-se sua arte especial na composição de sonetos. "Mal secreto", "As pombas", "A cavalgada" e "O vinho de Hebe" são exemplares antológicos.
Obras
Versos e versões (1870); Primeiros sonhos (1879); Sinfonias (1883); Aleluias (1891) e Poesias (1898)
O vinho de Hebe
Quando do Olimpo nos
festins surgia
Hebe risonha, os deuses majestosos
Os corpos estendiam-lhe, ruidosos,
E ela, passando, os corpos lhes enchia...
A Mocidade, assim,
na rubra orgia
Da vida, alegre e pródiga de gozos,
Passa por nós, e nós também, sequiosos,
Nossa taça estendemo-lhe, vazia...
E o vinho do prazer
em nossa taça
Verte-nos ela, verte-nos e passa...
Passa, e não torna atrás o seu caminho.
Nós chamamo-la em vão;
em nossos lábios
Restam apenas tímidos ressábios,
Como recordações daquele vinho.
Correia, Raimundo.
Poesias; Sinfonias. Rio de Janeiro, Agir,
1958. p. 22-3. (Col. Nossos Clássicos, 20.)
Alberto de Oliveira
Alberto de Olivera nasceu em Saquarema (RJ), em 1859. Diplomado em Farmácia, dedicou-se ao magistério, tendo exercido cargos públicos ligados ao ensino. Morreu em Niteroí (RJ), em 1937.
Alberto de Oliveira era considerado um parnasiano rigoroso e impassível. Preferindo ignorar os problemas nacionais, cultor da forma, sua temática incluía elementos da mitologia greco-romana, mais também assuntos nativos na forma de registro de impressões e sensações.
Na sintaxe, as inversões de palavras, às vezes verdadeiras sinqueses, eram uma característica do seu estilo rebuscado:
"Não quero, a Vênus opulenta e bela
Dos luxuriantes formas, entrevê-la
Da transparente túnica através".
Obras
A rigidez da métrica de seus versos e as rimas raras traduzem seu apego aos princípios da escola parnasiana.
Obras
Canções românticas (1877-78); Meridionais (1884); Sonetos e poemas (1885); Versos e rimas (1895).
Horas mortas
Breve momento, após
comprido dia
De incômodos, de penas, de cansaço,
Inda o corpo a sentir quebrado e lasso,
Posso a ti me entregar, doce Poesia!
Desta janela aberta
à luz tardia
Do luar em cheio a clarear o espaço,
Vejo-te vir, ouço-te o leve passo
Na transparência azul da noite fria.
Chegas. O ósculo
teu me vivifica.
Mas é tão tarde! Rápido flutuas,
Tornando logo à etérea imensidade;
E na mesa a que
escrevo apenas fica,
Sobre o papel - rastro das asas tuas -
Um verso, um pensamento, uma saudade.
Oliveira, Alberto de.
Poesia. Rio de Janeiro, Agir, 1959.
p. 65. (Col. Nossos Clássicos, 32.)
Conclusão
A partir de 1890, o Simbolismo vai superar o Parnasianismo. O realismo classicizante do Parnasianismo teve grande fortuna no Brasil, graças certamente à facilidade que os fazedores de verso encontraram na sua poética, mais de técnica e forma que de inspiração e essência. Penetrou, assim, muito além de seus limites cronológicos , paralelamente ao Simbolismo e mesmo ao Modernismo.
....O prestígio de seus adeptos ao final do século fez com que a escola se tornasse a escola oficial das letras durante muito tempo; e a tal ponto que na constituição da Academia Brasileira de Letras (1896) os simbolistas foram excluídos pelos parnasianos, que dominavam a vida literária, as revistas e os jornais.
....O movimento não morreu, mas, no contato com o Simbolismo, deu lugar, nas duas primeiras décadas do séc. XX, a manifestações de poesia sincretista e de transição.