SANDINO, O GUERRILHEIRO
Seria uma fácil tarefa de estatística e síntese jornalística referir a vida, a paixão e a morte de Augusto C. Sandino, o guerrilheiro que somente agora começa a ser objeto de curiosidade histórica por parte dos especialistas estadunidenses.. Dizer, por exemplo, quando nasceu, onde trabalhou, porque ficou famoso isto é, por que foi lutar na serra , em quantas ocasiões defendeu esta fama com a única coisa que podia sustentá-la e afirmá-la, ou seja, lutando sempre contra os interventores estrangeiros e a guarda nacional da sua pátria, adestrada por aqueles; mencionar suas vitórias e derrotas até a obtenção da paz por escrito, formal e solene; e, não muito tempo depois, seu aleivoso assassinato em campo aberto, sem outras testemunhas além de seus assassinos, seus companheiros de luta e as estrelas que titilavam sobre o amplo céu de Manágua. Mas sendo esta uma tarefa aparentemente simples, o personagem e sua gesta desapareceriam, deixando apenas a visão fria e descarnada de uma espécie de outro de tantos caudilhos de terra quente, um nome, um fuzil, um grito inútil de revolta, e depois o de sempre, a nada, o ditadorzinho usual e, mais tarde, a dinastia. Para fazê-lo diferente e entendêlo em seu significado cada vez maior, faltaria integrálo no contexto da sua época e da sua pátria, pequena como um lenço e tão economicamente insignificante então - e ainda hoje - como o próprio Sandino. Seria necessário fazer uma resenha prévia, que acrescentasse à história desses seis anos situados entre 1927 e 1933, anos de desprezo e cólera, algumas décadas mais de descrição de outros homens, outros barcos, outras vítimas e horrores a atos de heroismo e de baixeza, de inúmeras glórias e traições, embora os personagens principais tenham sido os mesmos, como mesmas foram as causas, os efeitos. E, principalmente, a raça e a língua.
O CONTEXTO HISTÓRICO
A perturbada Nicarágua de meados do século XIX conheceu pela primeira vez a raça e a língua dos conquistadores quando aquele Williarn Walker de infausta fama desembarcou em EI Realejo, chamado por uma facção política, contratados seus serviços de condottiero para destruir a odiada facção adversária. O ódio encarniçado entre liberais e conservadores, portanto, foi a causa de uma invasão de mercenários, tão ávidos de dinheiro quanto de sangue e glória, que assolou não apenas a Nicarágua, como também terminou com as riquezas da Costa Rica, El Salvador, Honduras e Guatemala. O flibusteiro Walker chegou, com sua audácia, a ser designado presidente da Nicarágua não muito tempo depois daquele nefasto 13 de junho de 1855, dia em que pôs pela primeira vez seus pés no solo do país. Mas sua cobiça provocou contra ele a inimizade de toda a América Central. E este foi o milagre. Pela primeira vez, desde que no istmo centro-americano se separaram e formaram as mi-núsculas nações, os mútuos ataques e rivalidades regionais, os ódios e fricções foram esquecidos. Forjaramse novos vínculos e alianças diante do inimigo comum de cabelo loiro, olhos azuis, religião herética, bárbaro idioma e alucinantes propósitos (um dos decretos emitidos por Walker, em exercício do poder presidencial, foi o restabelecimento da escravidão da Nicarágua), e um exército único em suas miras e objetivos enfrentou o despótico invasor até obrigá-lo finalmente a reembarcar num navio de guerra da sua pátria. Mas a riqueza destruída, as vidas segadas e os ódios não liquidados impediram o renascimento, o auge e o desenvolvi-mento econômico e político das cinco nações, durante o resto do século. Desaparecido o perigo que as tinha unido no momento premente da sua possível extinção, as cinco nações retornaram a seu habitual isolamento, a seus desacordos provincianos, a seu vegetar fatigado e tropical. Caudilhos regionais sem grandeza de fins nem âmbito para desenvolvê-los, perpetuaram o feudalismo local. Senhores presidentes de toga ou sabre governavam solos férteis e populações famintas. Café, banana, cacau, açúcar, talvez algodão e anil, e só. Mas os povos do istmo vivem marginalizados sob regimes paternalistas. A condição de pater é exercida tanto na fazenda quanto no poder. E muitas vezes confundem-se patrimônio privado com estado nacional. Na Nicarágua posterior ao desaparecimento do perigo de Walker (houve uma nova tentativa, liquidada pelos britânicos: o flibusteiro tentou, em 1860, outra aventura conquistadora; mas o cruzeiro "Icarus" impediu o intento, seu comandante entregou Walker aos hondurenhos e estes fuzilaram-no em 12 de setembro) não se recapacitou muito sobre o sentido de tudo o que havia ocorrido. As lutas entre liberais e conservadores tornaram a recrudescer, até que as peripécias partídistas dirimidas a fuziladas levaram ao poder o liberal José Santos Zelaya, que assumiu a presidência em 15 de setembro de 1893, permanecendo no poder até 16 de dezembro de 1909. Um pouco mais de dezesseis anos. Seria expulso dele graças à intervenção dos Estados Unidos.
A POLÍTICA DAS MARIONETES
Os observadores e estudiosos desse período da história da América Central e dos Estados Unidos caracterizaram a política de Washington de diferentes maneiras. Os célebres Nearing e Freeman criaram a expressão "Dolíar Diplomacy"; para o período imediatamente anterior, o das presidências do primeiro Roosevelt Theodore , a caracterização habitual era a de "Big Stick Diplomacy", isto é, a diplomacia do garrote, levando em conta a intervenção da União para provocar, apoiar e manter a segregação da província colombiana do Panamá e sua transformação em república soberana aceitemos a ficção com a finalidade expressa e fundamental de permitirse a construção do canal interoceânico. Outros historiadores, no fim da primeira década do século, conjugavam ambas designações durante a presidência de William H. Taft: diplomacia de garrote e dólares diziam.Viviam-se então as vésperas da Primeira Guerra Mundial. As grandes potências que ocupavam o primeiro plano eram a Alemanha do Kaiser, a Grã-Bretanha eduardiana e os Estados Unidos da "cintilante democracia", como o qualificara o primeiro Carnegie. Ao longe, crescia o chamado "perigo amarelo", representado pelas tendências expansionistas do Míkado. Os programas armamentistas estavam na ordem do dia, e todos os orçamentos anuais eram superados no ano seguinte, com duplicações de índole bélica. Ao longo de toda a década tinham havido fricções, mas para os Estados Unidos, que continuava a sua digestão das Ilhas Filipinas, Guam e Porto Rico (Cuba seria outro capítulo), depois da sua triunfante guerra contra a Espanha, o Japão significava um perigo potencial muito mais temível do que a Alemanha. Ainda mais desde que as concepções estratégicas do almirante Alfred Thayer Mahan tinham demonstrado a necessidade de contar com duas frotas independentes uma no Atlântico e outra no Pacífico até que o canal interoceânico estivesse concluído e habilitado. Mas como o canal do Panamá só estaria concluído em 1914, o tradicional ponto fraco da União seu litoral marítimo do sul seguiria exposto, salvo se contasse com bases fortificadas e estações carvoeiras de apoio lôgístico (os barcos de guerra e os mercantes em geral ainda eram movidos a carvão) em toda a área do Caribe. Assim se explica que, no tratado dos Estados Unidos com Cuba, através do qual esta obtém uma independência condicionada, feita possível pela ominosa Emenda Platt, sejam estabelecidas duas zonas geográficas que continuarão em poder estadunidense: Bahía Honda e Guantánamo. A diplomacia do dólar e a diplomacia do garrote às quais será acrescentada mais tarde a designação "Gunboat Diplomacy", ou diplomacia dos canhoneiros de desembarque unir-se-ão para impedir que algum poder europeu ou asiático se localize no território do istmo centro-americano ou nas suas adjacências, as ilhas do Caribe conhecidas como "Banana Re-publícs". O Caribe se transforma em lago norte-americano, o "Mediterrâneo da América", o "Mare Nostrum dos Estados Unidos". Para governar seus indóceis e revoltosos povos não podem ser designados, como nas Filipinas ou em Porto Rico, governadores de ofício. Pelo menos teoricamente, essas repú-blicas bananeiras são livres e soberanas, e não dependências coloniais norte-americanas. Surge então a necessidade de que seus povos sejam governados por homens amigos que realizem políticas amistosas com respeito à União. No caso deles não existirem, é preciso encontrá-los. E inimigos declarados, como esse ditador Zelaya, da Nicarágua, que tanto incomoda os assuntos e negócios da família Fletcher, devem ser afastados para colocar gente submissa e amiga em seu lugar, gente que obedeça os ditames, conselhos, sugestões e talvez até as ordens emanadas de Washington. Em resumo, precisa-se de marionetes, e no início do século XX os Estados Unidos instaurará pela primeira vez essa instituição peculiar das marionetes políticas que na quinta década receberá outro nome com simbologia mundial: quistinguismo. Na Nicarágua, o antecessor do norueguês Quisling chamar-se-á Adolfo Díaz.
CAI O "DITADOR" ZELAYA, ASCENDE O "DEMOCRÀTA" DÍAZ
Não relataremos ao leitor os detalhes da operação que produziu a queda do presidente quase vitalício José Santos Zelaya. Mas é importante assinalar, para a compreensão dos fatos posteriores, o papel desempenhado na sua queda pelo secretário de Estado norte-americano Philander C. Knox. A fins de 1909, um dos generais protegidos de Zelaya, Juan J. Estrada, iniciou uma insurreição na única região atlântica de certa importância da Nicarágua: a de Bluefields que, conjuntamente com a de Puerto Cabezas, constituíam a saída da produção de madeira e minerais explorada por empresas estadunidenses, entre elas as de propriedade da família Fletcher, cujos negócios estavam resguardados pelo escritório jurídico ao qual pertencia o mencionado secretário de Estado Knox. Zelaya enviou urgentemente tropas fiéis para a zona, imiciando-se assim uma das mais tradicionais guerras civis centro-americanas. Mas existiram detalhes anexos de grande novidade: um deles foi que o cônsul Moffat, em Bluelields, informou o Departamento de Estado, com antecedência, sobre a data em que a revolução começaria e até quem a encabeçaria; o segundo foi que dois cidadãos norte-americanos foram presos pelo exército de Zelaya momentos depois de terem fracassado em sua tentativa de explodir mediante minas, um barco carregado de forças governamentais enviado à zona de luta. Depois de um julgamento sumário realizado com todo tipo de garantias, os dois mercenários estadunidenses, Cannon e Groce, foram condenados à pena capital e imediatamente fuzilados. Este foi o pretexto usado por Knox para dirigir uma nota insultante a Zelaya, que significava a ruptura das relações entre os Estados Unidos e a Nicarágua. O governante, bom entendedor, compreendeu que era inútil resistir e, em nota de 16 de dezembro de 1909, elevada à Assembléia Nacional de sua pátria, resolveu renunciar para contribuir disse "com o bem da Nicarágua . . . e sobretudo para propiciar a suspensão da hostilidade manifestada pelo governo dos Estados Unidos, ao qual não quero dar pretextos para que possa continuar intervindo continuamente nos destinos deste país." O corpo legislativo aceitou a renúncia e designou em seu lugar um civfl, liberal moderado e adversário de Zelaya, Tosé Madriz, que continuou a luta contra as forças conservadoras rebeldes, agora sob o comando do general Emiliano Chamorro, enquanto Zelaya se exilava a bordo de um barco mexicano enviado especialmente pelo presidente Porfírio Díaz. O doutor Madriz teve boa sorte mflitar durante alguns meses, chegando a encurralar os revolucionários contra o forte foco da revolta; porém, quando ia apoderar-se da praça fortificada, os coman-dantes dos cruzeiros norte-americanos Paducah e Dubuque desembarcaram infantes da marinha e proibiram que as forças liberais continuassem sua ação bélica. Na realidade, colocaram-se no meio das forças em litígio, mas enquanto permitiam que as forças de Chamorro se abastecessem por mar, impediam que as de Niadriz fizessem a mesma coisa. O sucessor de Zelaya também compreendeu como era a questão, e no dia 20 de agosto de 1910 resolveu renunciar ao seu mandato e abandonar o país. Quebrando-se dessa forma a resistência dos liberais, não houve fator algum que se opusesse à toma do poder pelos conservadores. Isso foi feito através de um quadrunvirato integrado pelos generais Estrada, Chamorro e Luis Mena, além de um civfl, Adolfo Díaz, até o dia anterior empregado de confiança da empresa mineira La Luz y Los Án-geles Minning Company, propriedade da farm]ia Fletcher. A te-tralogia funcionou escassas semanas, e converteu-se em governo constitucional" em 1.0 de janeiro de 1911, com o general Estrada como presidente, o civil Díaz como vice, o general Mena como Ministro da Guerra e o general Chamorro como presidente da Assembléia Nacional. Tudo parecia ir perfeitamente bem, mas o diabo, que sempre costuma intrometerse nesse tipo de assuntos, complicou as coisas de um modo ines-perado. Dois enviados de confiança de Knox, os senhores Dawson e Northcott, cometeram as estupidezes diplomáticas suficientes para que o ferido orgulho nacionalista nicaraguense reclamasse reparação. O general Mena censurou o seu colega Estrada pela "entrega" do país, sem tomar precauções prévias. Estrada o destituiu e encarcerou-o em seguida. O povo se exasperou, e tudo parecia que ia começar novamente, depois de conhecidos os "Convênios Dawson" (que convertiam a Nicará-gua, de fato, numa dependência estadunidense), quando Estrada resolveu sacrificar-se e renunciar. Díaz tomou o poder. Díaz tinha a vantagem de falar e escrever perfeitamente o inglês. O flibusteiro Walker teria gostado que ele fosse seu secretário de confiança. Agora, ungido com os santos óleos da democracia do norte, dispôsse a governar, tal como os que o haviam ascendido ao poder o requeriam.
PRIMEIRA OCUPAÇÃO, WALKER SEGUNDA OCUPAÇÃO, BUTLER
Entre as condições impostas pelos enviados Dawson e Northcott ao quadrunvirato, figurava a de que a Nicarágua devia aceitar uni empréstimo dos Estados Unidos, oferecendo como garantia bens tangíveis como a Ferrovia Nacional e o Banco da República, e outros não tão tangíveis, como a concessão por 99 anos, do direito de construir em território nicaraguense, um canal semelhante ao que estava sendo construído no Panamá, opção não obrigatória, complementada pela cessão e licença para construir bases fortificadas e estações carvoeiras em ilhas e territórios continentais nicaraguenses. Essas condições, entre outras, tinham provocado o primeiro protesto de Mena, a impopularidade de Estrada e sua posterior renúncia, e um estado de efervescência coletiva que se mantinha latente apesar da presença inamovível das tropas conservadoras na capital e pontos chaves do país. Mas em 29 de julho de 1912 o general Mena sublevou-se contra Díaz, obtendo não apenas o apoio dos grupos conservadores aos quais per-tencia, mas também o dos liberais, resolvidos a terminar com a farsa. Um general liberal, Benjamín Zeledón, ocupou brilhantemente Manágua, Granada e Masaya, e já parecia estar com o triunfo assegurado, quando o Departamento de Estado ordenou, novamente, o desembarque da infantaria da marinha, desta vez desde o Oceano Pacífico. Quando se realizaram os inquéritos legislativos em Washington, ficou demonstrado que o pr& prio Díaz tinha pedido o desembarque. Reproduzia-se o fenômeno Walker, mas desta vez as forças norte-americanas tinham sido chamadas por um conservador. Houve ainda outra mudança, infelizmente muito dolorosa. Contrariamente ao que havia ocorrido meses antes em Bluefields, a infantaria da marinha, sob o comando do major Smedley Butier, não se limitou a dar conselhos e a fazer observações pacifistas. Com canhões e metralhadoras desembarcados de um total de 8 navios de guerra, e fuzis levados por 2.600 homens mandados por 125 oficiais, Manágua e Masaya foram submetidas a um terrível bombardeio. Os rebeldes renderam-se às tropas norte-americanas, e o chefe da revolta, Mena, foi embarcado para uma prisão no Panamá. Mas como o general Zeledón continuasse resistindo na localidade de Coyotepe, também ali produziu-se uma matança, com bombardeio de canhões e assalto com baionetas. Ali caiu, coberto de glória, um dos heróis menos conhecidos da nossa América. Ali terminou, em Coyetepe, a resistência contra a invasão de fora e a traição de dentro. Passariam dezesseis anos antes que fosse possível reiniciar a eterna batalha da Nicarágua pela sua libertação. No final desse período, novamente encontrar-se-iam infantes da marinha aliados aos conservadores e depois aos liberais para combater um discípulo de Zeledón, o qual, porém, não seria como este, militar de carreira, mas apenas um operário não qualificado. Mas contrariamente a Zeledón, não levaria a cabo a luta frontal, suicida, daquele. Escolheria o sistema da guerra da independência hispano-americana, ressuscitado no vizinho México pelos fantasmais Francisco ("Pancho") VilIa e Emiliano Zapata: a guerrilha.
O "CONSENSO" DA OCUPAÇÃO
A partir de então, Díaz pôde governar com toda a tranqúilidade. Gozava da benevolência do Departamento de Estado e tinha, como garantia indiscutível, a presença permanente das tropas norte-americanas em Manágua, além do estacionamento em águas próximas de cruzeiros da União, sempre prontos para o desembarque de infantes. Não era inconveniente para seu mandato a presença no poder dos Estados Unidos de um novo presidente, o incorruptível Woodrow Wilson, chamado de "apóstolo da democracia". Foi sob a presidência desse paradigma da liberdade, que foram consumadas intervenções armadas em Honduras, Panamá, República Dominicana, Haiti e Cuba. Estas três últimas nações tiveram que suportar, durante longos anos, a ocupação de seus territórios por forças dos Estados Unidos, como no caso da Nicarágua. E, para completar esta nada idílica visão da "Gunboat Diplomacy", a cidade de Tampico, no México, era invadida por infantes, e a de Veracruz, no mesmo país, submetida a um terrível bombardeio, no qual morreram dezenas de cadetes navais mexicanos junto ao pendão erguido de sua pátria. Não muito depois, um exército norte-americano violaria as fronteiras do Rio Bravo e penetraria centenas de quilômetros no território mexicano, para capturar pelo menos foi o que declararam Francisco Vilia, "bandido posto fora da lei". Foi também durante a presidência deste paladino da liberdade que ficou consumado o tratado Bryan-Chamorro, no qual a Nicarágua concedia aos Estados Unidos a opção para construir um canal em seu território, além das bases navais já indicadas, tudo isso em troca de tim pagamento de três mflhóes de dólares que, como foi amplamente demonstrado, jamais saiu de Fort Knox. As reflexões do ex-secretário da Guerra da União, Elihu Root, falando como senador (Ver Diário de Sessões do Senado, Washington, D.C.; p. 1577, 13 de janeiro de 1917), demonstram a importância de tal transação: "Preocupa-me enormemente pensar se o governo da Nica-rágua que celebrou o tratado, é realmente o genuíno represen-tante daquele povo, e se pode ser considerado, na Nicarágua e na América Central, como um legítimo e livre agente para outorgá4o; digo isso porque li o relatório do chefe dos nossos infantes na Nicarágua, e encontrei nele as seguintes palavras: "O atual governo não está no poder pela vontade do povo; as eleições, na sua maioria, foram fraudulentas". E mais adiante, li no mesmo relatório a afirmação de que os opositores daquele governo constituem as três quartas partes do país. Podemos nós celebrar um tratado tão sério para a Nicarágua, em que nos são concedidos direitos perpétuos naquele território, com um presidente que representa somente uma quarta parte dos governados daquele país, que é mantido no posto pela nossa força militar e a quem, como conseqúência do tratado, pagaríamos uma con siderável soma de dinheiro? Não gostaria de ver os Estados Unidos colocar-se em tal situação . O tratado Bryan-Chamorro foi promulgado e, logicamente, até hoje permanece vigente. Graças a ele, Adolfo Díaz pôde continuar seguro no seu posto até 1.0 de janeiro de 1917, quando foi substituído, mediante aquelas eleições fraudulentas mencionadas pelo senador Root, pelo general Erniliano Chamorro. O suposto "consenso" ou '1consentimentô" do povo da Nicarágua, que era apenas a impotência nascida da falta de armas e da presença estrangeira em território nacional, seguia manifestando-se como uma grande calmaria, uma paz de epiderme, o sepulcro varsoviano imposto pelo invasor. A situação continuaria assim durante mais alguns anos.
BREVE PARÊNTESE DE LIBERDADE
Em 21 de janeiro de 1921, já finalizado o conflito mun-dial que serviria de justificação ao apóstolo Wilson para escravizar seus vizinhos do Caríbe, o general Emiliano Chamorro foi substituído, em eleições tão fraudulentas como as anteriores, pelo seu tio, o civil Diego M Chamorro. Os conservadores só se sentiam seguros do mando mantendo em familia (os Somoza aprenderiam deles a lição, aperfeiçoando o sistema como dinastia). Mas surgiu um problema inesperado. O tio Chamorro, "consumido por muitos vícios", morreu doente poucos meses depois de ser presidenciado, e foi sucedido pelo vice-presidente, Bartolomé Martínez, o qual, produto de uma transação eleitoral, era alheio ao clã Chamorro. Além disso, teve a idéia inexplicável de iniciar o pagamento da dívida externa, a reintegração da Ferrovia Nacional e do sistema bancário a mãos nicaraguenses, chegando ao cúmulo de conceder eleições livres e garantidas pela presença de observadores norte-americanos. Como isso coin-cidia de algum modo com a nova política dos Estados Unidos, a cargo do secretário de Estado Charies Evan Hughes presidência de Warren G. Harding pareceu fatível que as importantes mudanças pudessem ser realizadas sem violência. Washington estava tão disposto a que isto fosse assim, que em 14 de novembro de 1923 anunciou publicamente que, quando o novo presidente da Nicarágua tomasse posse do cargo, em 1.0 de janeiro de 1925, procederia à retirada de todas as suas forças de ocupação. Mas para que a mudança e a transição não fossem tão bruscas e provocassem novos conflitos, tentou-se curar velhas feridas mediante uma espécie de participaç]oo no poder, que não foi objetada pelos Estados Unidos. Assim surgiu a fórmula Carlos Solórzano Juan Bautista Sacasa, sendo o primeiro conservador e o segundo, liberal. Solórzano foi "programado" por Martínez, que acreditou que aquele, por gratidão, permaneceria leal a fim de assegurar-lhe o retorno ao poder na eleição seguinte: mas esqueceu-se do dado essencial de que Martínez era cunhado do indescritível Díaz. De todos modos, a fórmula resultou triunfante e a mistura liberal conservadora pareceu funcionar bem, a tal ponto que os Estados Unidos consideraram que deviam cumprir sua promessa pública de retirar sua infantaria do país. Isso foi finalmente feito em 3 de agosto de 1925, oito meses depois da data anunciada. Assim terminou a chamada segunda intervenção. Mas não passariam muitos meses antes da terceira.
PROLEGÔMENOS DA TERCEIRA INTERVENCÃO
A lua-de-mel com a liberdade terminou logo. Em 3 de agosto como já indicamos a infantaria da marinha estadunidense retirou-se da Nicarágua, e em 25 do mesmo mês, um general do clã Chamorro, Alfredo Rivas, deu um "minigolpe militar". Era uma espécie de sondagem prévia, para avaliar qual seria a reação em Washington. Harding já não era presidente, nem Hughes, secretário de Estado. Tinham sido substituidos, respectivamente, por Calvin Coolidge e Frank B. Kellogg. Mas o Departamento de Estado reagiu enviando imediatamente um barco de guerra. Era uma espécie de pré-aviso. Tal fato causou a impressão de que a facção desconforme com a eleição, isto é, o grupo de Diáz e Chamorro, sossegaria. Mas este último não pôde controlar o seu gênio e, na noite de 25 de outubro de 1925 - não haviam passado 90 dias depois da "libertação" deu uma segunda "miniquartelada", que consistiu em deixar Solórzano no poder, embora impondoúhe novos ministros e sua própria designação como comandante do exército; como complemento, expulsou do congresso os legisladores liberais, substituindo-os por conservadores, além de declarar fora da lei e sujeito ao desterro o vice-presidente Sacasa. A operação, porém, ainda estava incompleta. Como tinha sido comprovado pela sondagem inicial, que os Estados Unidos não reconheceriam um "presidente" surgido de um golpe militar (tendência diplomática vigente desde o período Harding-Hughes e estabelecida mediante convênios ad hoc), foram necessários outros passos. Em 16 de janeiro de 1926, o Congresso, já "limpo" de liberais, nomeou Emíliano Chamorro "designado à presidência", título equiparável ao de vice-presidente, com todos os seus deveres e atribuições, entre eles, obviamente, o de substituir o presidente em caso de acefalia. Só por acaso, no mesmo dia em que Chamorro obtinha esta designação, Solórzano renunciava ao mando. Dom Emiliano, pois, devia sacrificar-se pela pátria, assumindo a presidência, sem que a continuidade jurídico-constitucional parecesse alterada. Mas a situação era burda demais, mesmo para um paladar pouco refinado em matéria de delicadezas como o de Washington, de modo que Kellogg viu-se na obrigação de notificar, no dia 22 de janeiro, ao encarregado de negócios nicaraguense nos Estados Unidos, que o novo governo não ia ser reconhecido. Chamorro não demonstrou muita preocupação pelo gesto de Washington, porque tudo não passou disso, e os vínculos comerciais prosseguiram como até então, sem que fosse necessária, outra vez, a impopular presença de tropas estadunidenses no pais. Mas novamente apareceu o diabo, desta vez encarnado na figura do ex-vice-presidente Sacasa legalmente presidente, posto que não havia renunciado ao cargo e tinha abandonado o país pela força ' o qual buscou a ajuda de um mflitar que havia lutado em Coy tepe, o general José Maria Moncada, e ambos puseram-se a conspirar para derrocar Chamorro. Sacasa e Moncada peregrinaram pelos países vizinhos, e o primeiro deles conseguiu finalmente promessas de apoio do presidente mexicano Plutarco Elías Caíles, tanto em armas quanto em dinheiro. Com essa promessa e ilusão, Sacasa chegou a Washington e entrevistou-se com vários funcionários responsáveis do Departamento de Estado, incluindo Kellogg. Confiou a este último a promessa de apoio que tinha recebido do presidente Caíles. O olhar de Kellogg iluminou-se subitamente Caíles tinha oferecido armas e dinheiro? Bem! Muito bem! Washington disse Kellogg a Sacasa não podia fazer o mesmo, mas também não faria nada para impedi-lo. E desejava-lhe boa sorte. Sacasa abandonou Washington louco de alegria. Não menos contente estava Kellogg. Se Caíles ajudar Sacasa pensava, talvez esfregando as mãos e tivermos meios de prová-lo, teremos a maneira de destruir este "maldito comunista mexicano". Graças à ingenuidade política de Sacasa que seria demonstrada em outras inúmeras oportunidades o Departamento de Estado tinha encontrado, sem querer, um possível remédio para' a sua velha dor de cabeça que era o México, agora representado pelo mandatário Caíles. Nascia a "Operação México-Nicarágua".